Ao GLOBO, o presidente do UBS na América Latina, Daniel Bassan, diz que “o tema eleição é menos relevante neste momento que nos anos (eleitorais) passados” e atribui essa menor preocupação ao cenário de instabilidade internacional. O executivo afirma ainda que o investidor estrangeiro está dando menos atenção ao risco fiscal neste momento, mas que o tema deve voltar ao radar após os brasileiros irem às urnas.
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Segundo ele, que está há dois anos no cargo e acumula a presidência do grupo UBS no Brasil, apesar de o conflito no Oriente Médio impactar todas as economias do mundo, o Brasil tem se saído bem desde que os investidores internacionais “recolheram as asas” diante da instabilidade global e voltaram a diversificar suas aplicações entre países emergentes. Ele prevê mais de dez IPOs no Brasil neste ano.
O UBS atua em duas frentes no país: na gestão de fortunas e numa parceria com o Banco do Brasil no braço de investimentos UBS BB. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Estamos vivendo um momento de redefinição global com Donald Trump na Casa Branca e agora uma guerra no Oriente Médio afetando a economia de vários países. Como o Brasil tem se saído nesse cenário?
O efeito mais prático e imediato da guerra talvez seja o que vemos todo dia no jornal: o petróleo. E as consequências têm sido basicamente uma pressão inflacionária no mundo e, potencialmente, uma taxa de juros global mais elevada. O mercado tinha expectativa de que os juros no mundo poderiam começar a ter uma redução, e a verdade é que agora as expectativas são, em determinados lugares, até de alta ou redução do ritmo de queda, como aqui. No Brasil, a nossa expectativa é que a queda (da taxa básica de juros, a Selic), que poderia ser um pouco mais acelerada, será um pouco mais lenta.
Por outro lado, essa volatilidade e instabilidade global têm colocado o Brasil no centro do mapa. Nos últimos dez anos, houve atração de capital pelo mercado americano, principalmente para as Sete Magníficas (big techs americanas). E agora começamos a ver uma redistribuição desse capital global. Um pedaço está vindo para mercados emergentes. O Brasil tem aparecido como alternativa importante.
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A política econômica de Trump impede alguma previsibilidade na economia mundial?
O investidor não gosta de instabilidade, independentemente da geografia em que esteja atuando. Começa a ficar um pouco mais conservador, mais arredio. Ele recolhe um pouco as asas. No tarifaço, o investidor falou: “Deixa eu recolher um pouquinho minhas asas para poder ver aonde vou”.
O que motiva esse fluxo tão forte de capital internacional para o Brasil neste ano?
A diversificação ainda é de um percentual pequeno do capital dos investidores, globalmente falando. Mas, para a gente, acaba sendo muito representativo. É um pouco “nunca colocar os ovos na mesma cesta”. O investidor estrangeiro havia esquecido o mercado emergente nos últimos dez anos. Do Brasil, ele quer liquidez (facilidade para se desfazer do investimento) e (perspectiva de) crescimento.
Apesar de ser investidor de Bolsa e entrar para ficar muito tempo, ele quer saber quando e como pode sair. Temos 210 milhões de habitantes e setores com muito pouca penetração ainda. Isso atrai bastante o investidor.
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Como o UBS lida com o patamar de juros ainda muito alto?
Nenhum banco gosta de trabalhar com juros altos porque isso reduz o crescimento da economia e a possibilidade de fazer outros negócios. Principalmente num banco como o nosso, focado em prestação de serviços: fusões e aquisições, IPOs, emissão de dívida. Com juro muito alto, acabamos tendo redução no volume. Com juros mais baixos, a economia gira mais rápido, as operações aumentam, a avaliação das companhias melhora.
Há maior tensão com empresas alavancadas e aumento de pedidos de reestruturação de dívidas e recuperação judicial no Brasil. É o início de um cenário mais crítico ou não passam de sustos localizados?
Estamos com juros altos há muito tempo, e isso está afetando o balanço das empresas. É como ter um problema de saúde e ter de tomar um remédio por muito tempo. Uma hora começa a afetar seu fígado, seu rim e vai começando a ter efeito colateral. Mas se você não toma o remédio, a inflação volta. Vivemos esse histórico, e foi muito doloroso resolver. Quando você é dono de uma empresa, assume riscos, toma decisões e, normalmente, tem uma margem de manobra. Erra aqui, acerta ali.
Quando o juro está muito alto, você pode errar menos. Errar custa muito caro. Isso aconteceu com alguma dessas empresas. Não acho que vamos ter uma avalanche de empresas com problemas, mas esse é um tema recorrente nas companhias, que estão reduzindo investimentos e começando a ter de lidar com isso (endividamento) de forma mais complexa.
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A expectativa de redução da Selic, ainda que num ritmo menor, ajuda a retomada de aberturas de capital?
Há um grupo de empresas que está para fazer IPO há algum tempo, esperando condição de mercado melhor. A taxa de juros como está e com queda um pouco mais lenta pode atrasar um pouco. Por outro lado, vemos um inflow (entrada) de dinheiro (estrangeiro) muito grande. Hoje, se as empresas tivessem uma necessidade de fazer IPO porque têm uma oportunidade de crescimento muito grande, elas poderiam fazer. Mas a taxa de juros mexe na avaliação da companhia.
Talvez não seja a que o fundador ou acionista gostaria. O que vai pesar é se o desconto compensa pela oportunidade que ele tem. Talvez tenha atrasado um pouco para o terceiro trimestre, mas acho que neste ano teremos uma quantidade de IPOs razoável.
Mais de dez. O melhor momento talvez seja no ano que vem, quando os juros estiverem mais baixos. Mas acho que as oportunidades vão aparecer. E o fluxo (internacional) ajuda a definir muito o momento do IPO. Para essa nova leva, acreditamos que a maioria vai acontecer na Bolsa do Brasil. Diferentemente de 2020 e 2021, acreditamos que teremos muito mais estrangeiros que brasileiros comprando, parecido com o que vimos em 2006, 2007 e 2011. Estrangeiros preenchiam de 60% a 70% do livro de ofertas. O dinheiro do brasileiro está muito na renda fixa, ainda não migrou para a variável. Vai migrar na medida em que o juro cair.
Estamos nos aproximando das eleições no Brasil, que geralmente ampliam a volatilidade. A tendência é o investidor internacional pisar um pouco no freio?
Se a gente olhar o histórico, este ano está diferente, talvez pela coincidência do cenário global com as eleições. Um tema que vai dominar a cabeça do investidor pós-eleições: a questão da (relação entre) dívida líquida e PIB. Assim como estamos vendo as pessoas físicas extremamente alavancadas, o Brasil não pode estar extremamente alavancado. Começa a diminuir a capacidade de investimento do país. É um tema que preocupa o mercado, mas hoje não é o que atrai a atenção do investidor (estrangeiro). É a diversificação global.
Ele acha que o tema fiscal pode ser tratado um pouco mais para frente. Já o investidor brasileiro está um pouco mais ressabiado porque está no epicentro dessa discussão, vivendo no dia a dia. Mas o tema eleição é menor, menos relevante neste momento que nos anos (eleitorais) passados.
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