A percepção de que a inflação pode voltar a ganhar força — impulsionada pela guerra no Oriente Médio, pela alta do petróleo e por novas pressões sobre cadeias globais de produção — reduziu apostas em cortes de juros e piorou o humor com ativos de risco, especialmente em economias mais sensíveis ao custo do crédito, como o Brasil.
O movimento azedou o ambiente para bolsas, fortaleceu a migração para renda fixa e reacendeu dúvidas sobre até onde bancos centrais conseguirão reduzir juros sem provocar uma nova rodada inflacionária.
AIE prevê maior contração na demanda global de petróleo com choque em OrmuzExplosão tecnológica e petróleo: Realidade da Ásia é alerta ao mundoA guerra com o Irã pode ter um lado positivo surpreendente para a economia Parte dessa mudança passa pela China. Para Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, o país começa a perder um papel importante que teve nos últimos anos: o de exportador de deflação para o restante do mundo.
“O caso da China é especialmente relevante. Após um longo período exportando deflação para o resto do mundo, os preços ao produtor surpreenderam para cima, em meio à alta das commodities energéticas, ao encarecimento do frete marítimo e às disrupções nas cadeias globais”, afirma.
Nos últimos anos, a China ajudou a conter a inflação global ao exportar produtos industriais baratos — de eletrônicos a roupas, aço e carros elétricos. Agora, com energia e logística mais caras, esse efeito desinflacionário começa a perder força.
Na avaliação de Oliveira, isso tende a aumentar a pressão inflacionária global justamente num momento em que os bancos centrais já encontram dificuldade para controlar os preços. O economista projeta IPCA de 5,5% neste ano e de 5,6% em 2027, acima do teto da meta do Banco Central. Segundo ele, além da guerra e da alta das commodities, cresce também a preocupação com os impactos de um possível El Niño mais rigoroso sobre alimentos e energia.
Oliveira prevê Selic em 13,25%, mas afirma que não descarta elevar essa projeção caso o cenário externo e climático continue pressionando expectativas e preços.
Nos Estados Unidos, a preocupação central continua sendo evitar uma nova rodada inflacionária sem provocar uma desaceleração mais forte da atividade. O mercado de trabalho americano ainda mostra resiliência, embora em ritmo mais moderado.
Segundo Arnaldo Lima, da Polo Asset, os dados mais recentes mostram que tanto EUA quanto Brasil seguem convivendo com mercados de trabalho fortes, ainda que já existam sinais de desaceleração na margem.
“Nos EUA, o Payroll de abril mostrou criação de 115 mil vagas, desemprego estável em 4,3% e salários crescendo 3,6% em 12 meses”, afirma.
No Brasil, o Caged registrou saldo positivo de 228 mil vagas formais em março, enquanto a PNAD mostrou desemprego de 6,1%, a menor taxa para trimestres encerrados em março desde o início da série histórica.
Outro ponto de convergência entre Brasil e Estados Unidos está justamente na inflação de serviços — considerada uma das mais difíceis de combater pelos bancos centrais porque reflete pressões mais estruturais da economia, especialmente ligadas ao mercado de trabalho e à renda.
Segundo cálculos de Rogério Sobreira, economista-chefe do Banco do Nordeste, a inflação de serviços nos Estados Unidos acumulou alta de 3% entre março de 2025 e março de 2026, enquanto a chamada inflação supercore ficou em 3,1%.
No Brasil, a inflação de serviços também segue elevada, especialmente nos segmentos intensivos em mão de obra, que acumulam alta acima de 6% em 12 meses. Esse tipo de inflação costuma ser mais resistente porque responde menos rapidamente à alta dos juros.
