A juventude brasileira vive um momento de distanciamento notável dos partidos políticos, reconfigurando sua relação com a esfera pública. Exemplos como o da estudante Sophia Macedo, de 22 anos, ilustram essa tendência. Embora reconheça que "a época é política", Sophia, apesar de ter tido contato com a vida pública desde cedo, não demonstra interesse em se filiar a uma sigla. Essa postura reflete uma desilusão crescente com as estruturas partidárias, vistas por muitos jovens como excessivamente polarizadas e comparáveis a torcidas de futebol, onde o debate cede lugar à defesa incondicional da legenda.
Os números corroboram essa percepção de esvaziamento. Levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da UnB, aponta uma queda de 54% nas filiações de pessoas entre 16 e 34 anos entre 2010 e 2026. Nesse período, os partidos políticos perderam aproximadamente 1,5 milhão de jovens filiados, configurando um dos mais expressivos êxodos da militância desde a redemocratização do país. Essa descrença é alimentada por notícias frequentes de corrupção e escândalos, que reforçam a desconfiança gerada em relação aos partidos.
Especialistas apontam que os partidos tradicionais enfrentam dificuldades em criar mecanismos de identificação com as novas gerações. Renato Dorgan, do instituto Travessia, observa uma descrença generalizada na política convencional, aliada a uma sensação de que "está tudo errado", o que pode impulsionar visões antissistema. A estrutura burocrática e anacrônica de muitas legendas, com pouca renovação de lideranças e dificuldade em dialogar com os repertórios digitais da juventude, é apontada como um entrave. Gabriel Cassiano, que já disputou eleições, desistiu de novas candidaturas devido à estrutura "viciada e anacrônica" dos partidos, que, em sua visão, falham em oferecer respostas concretas a temas cruciais como emprego e o impacto da inteligência artificial.
Em contrapartida, algumas legendas como PSOL, Novo e Missão têm conseguido atrair um público jovem, muitas vezes por possuírem identidades ideológicas mais definidas e estratégias de comunicação digital mais eficazes. Entre junho de 2022 e junho de 2023, enquanto as legendas como um todo perderam 419 mil filiados jovens, PL, Novo, PSOL e Rede apresentaram crescimento nesse segmento. Diante desse cenário, medidas como a reserva de 1% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha pelo MDB para candidaturas de jovens nas eleições deste ano indicam uma tentativa de adaptação ao novo panorama político.
