Apesar da comemoração nacional pela redução das mortes violentas intencionais (MVIs), um dado alarmante tem passado despercebido: o aumento da letalidade provocada pelas forças de segurança do Estado. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026, destaca que quando as mortes decorrentes de intervenção policial ultrapassam 10% do total de MVIs, há fortes indícios de uso excessivo da força, um patamar que o Brasil já atingiu em 16%.

Em 2025, o país registrou 6.602 mortes em decorrência de ações policiais, uma média diária de 18 vidas perdidas. Este número representa o maior índice desde o início da série histórica do Anuário em 2016 e um crescimento de 5,4% em relação ao ano anterior, em contraste com a queda geral dos homicídios. A análise dos dados revela ainda que a letalidade policial afeta de maneira desproporcional homens jovens e negros, com 79% das vítimas sendo negras e 41% tendo entre 18 e 29 anos, o que reflete a persistência das desigualdades raciais na sociedade brasileira.

O Anuário enfatiza que o uso da força letal por agentes do Estado deixou de ser um evento isolado para se tornar uma tendência persistente, totalizando 60.558 mortes em intervenções policiais na última década. Para dimensionar o impacto, o relatório compara o número de vítimas a uma cidade inteira esvaziada. Diante dessa realidade, especialistas defendem que a resposta não deve ser mais violência, mas sim o fortalecimento de instituições de controle, como o Ministério Público, o Poder Judiciário e as corregedorias, para limitar abusos e prevenir ilegalidades, atuando com proficiência, tempestividade e independência.

Ferramentas como as câmeras corporais são apontadas como importantes para a transparência, mas sua eficácia depende de investigações qualificadas e controle externo efetivo. No Recife, onde as câmeras corporais ainda são uma promessa, o estado registrou um aumento de 30% nas mortes decorrentes de intervenção policial, segundo o relatório Pele Alvo. Um exemplo de controle que funciona foi a atuação do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) após a Chacina de Camaragibe em 2023, que resultou na responsabilização de autores de abusos e em uma redução de 44% nas mortes policiais no ano seguinte. Embora a legislação preveja o uso legítimo da força em casos de legítima defesa ou estrito cumprimento do dever legal, o debate atual se concentra no uso excessivo e ilegal da força letal por agentes de segurança.