O presidente americano, Donald Trump, fez “uma coisa desaforada com o Brasil e ele sabe disso”, declarou o presidente Lula ao evocar as possíveis novas tarifas de 25% que poderão ser aplicadas a produtos brasileiros a partir de 15 de julho e a decisão do governo dos EUA de classificar facções criminosas como terroristas. “É por isso que eu disse que ele continua agindo como um imperador. Lula ainda deu um recado a Trump “para não se meter nas eleições do Brasil.”

As declarações foram feitas em uma coletiva em Genebra, na residência do representante do Brasil junto à ONU, após o encerramento da cúpula do G7 em Évian-les-Bains, nos Alpes franceses, onde Lula participou como convidado e viu Trump em algumas sessões de trabalho e eventos organizados pela presidência francesa do grupo. Mas durante os três dias de reuniões houve pouca interação entre ambos.

“Não pedi bilateral para o Trump porque estamos em negociação”, disse Lula, indicando que há conversas em andamento entre membros do governo brasileiro e americano sobre o tarifaço. Lula afirmou que quando as discussões sobre o tema terminarem e, caso não haja mudança de posição por parte dos EUA, ele poderá “pegar o telefone, ligar para o Trump e marcar outra conversa.”

Lula demonstrou irritação com os comentários de Trump, em uma coletiva do americano após o encerramento do G7, em Évian-les-Bains, de que a situação política no Brasil “é perigosa” e que o país “é complicado.” O presidente dos EUA também confundiu os integrantes da família Bolsonaro ao afirmar que “prenderam o Bolsonaro Jr., alguém que está concorrendo a um cargo público e está indo bem nas pesquisas e o prenderam porque ele fez uma declaração no Texas.” O STF condenou nesta semana o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo e não o senador e pré-candidato à Presidência Flavio Bolsonaro.

“Não se meta nas eleições do Brasil porque as eleições do Brasil são problema do Brasil. Como as eleições americanas são um problema dele e não meu. A única coisa que eu quero é o respeito pelo Brasil que eu tenho pelos Estados Unidos. Só isso”, afirmou Lula. Ele citou ainda a eficiência das urnas eletrônicas brasileiras como exemplo a ser seguido pelos EUA e acrescentou que na próxima vez levará uma urna ao Trump para ele ver como funciona.

O presidente brasileiro disse ainda que Trump tem o direito de ter as preferências ideológicas dele, “mas não pode ferir o código de ética de nações que querem ser respeitadas por sua soberania.”

Lula também afirmou que Trump “fala muito e ouve pouco” e disse ter entregado ao presidente americano documentos sobre ações da Polícia Federal no combate ao crime organizado, a questão das terras raras e sobre comércio.

“Eu já tinha dito para ele que essas facções criminosas não são terroristas, elas não querem derrotar o Estado, elas não querem criar um outro Estado. Elas querem dinheiro. É diferente.”

Lula ressaltou ter cobrado dos americanos uma cooperação mais ativa contra o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro do crime organizado, acrescentando que todas as armas apreendidas pela Polícia Federal no Brasil vêm de Miami e que, segundo ele, o Estado do Delaware “faz lavagem de dinheiro de bandidos brasileiros.”

Na manhã de quarta-feira, Trump deixou os demais líderes do G7 e de países convidados esperando por quase uma hora para dar início à primeira sessão de trabalho do dia de encerramento do G7, voltada para discutir como relançar um crescimento econômico equilibrado e sustentável. Lula, segundo imagens divulgadas do encontro, ficou visivelmente irritado com o atraso do americano, que chegou à reunião dizendo que “ele é o chefe”.

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