Itália, Colômbia, Espanha, Argentina, Moçambique, Nepal, Austrália. Sabe o que todos esses países têm em comum? Nenhum deles tem mais de 60 milhões de habitantes. Enquanto isso, o Brasil possui 63,9 milhões de jovens e adultos que não concluíram a educação básica e estão fora da escola. É o que mostra o estudo “Demanda Potencial por EJA e Transição para o Trabalho”, recém-lançado pela Rede EJA e Inclusão Produtiva, coalizão formada por 16 instituições da sociedade civil e organismos multilaterais.
Esse contingente representa 37,3% da população brasileira com 15 anos ou mais. Os dados mostram que a EJA (Educação de Jovens e Adultos) enfrenta desafios muito específicos de alcance e oferta, determinados por marcadores de classe, gênero, raça e renda.
Dos quase 64 milhões que não concluíram a educação básica, 44,7 milhões não finalizaram o ensino fundamental e 19,3 milhões interromperam seus estudos antes de completar o ensino médio.
Entre outros aspectos, o levantamento associa a baixa escolaridade à pobreza, à precariedade de trabalho e às desigualdades sociais e territoriais. No recorte racial, pretos e pardos somam 63,9% dos não escolarizados. Quanto ao gênero, há equilíbrio: as mulheres representam 49,2% do grupo.
“Baixa escolaridade, desigualdades e pobreza se retroalimentam. Os mais vulneráveis tendem a abandonar a escola mais cedo; quem abandona tem acesso restrito a empregos mais bem remunerados. Esse ciclo não se quebra apenas com a oferta de vagas em escolas. Exige intervenções intersetoriais capazes de remover os obstáculos à permanência, ao aprendizado e às transições entre escola e trabalho”, destaca o levantamento.
Pensada para avaliar a oferta e o atendimento desse segmento, a pesquisa identifica que houve uma queda de 16% na demanda potencial desde 2012. O recuo, contudo, não decorre da eficiência da modalidade. A população não escolarizada está envelhecendo, e a mortalidade responde por cerca de 8% dessa redução.
A interrupção dos estudos cobra um preço financeiro alto ao longo da vida. De acordo com a pesquisa, a taxa de pobreza entre quem não concluiu a educação básica chega a ser 1,8 vez maior do que a registrada entre os formados.
Nessa parcela da população, a renda domiciliar per capita equivale a apenas 51,4% dos rendimentos do restante dos cidadãos. O país perde, anualmente, cerca de R$ 66 bilhões em massa de rendimento devido à baixa escolaridade.
“A Educação de Jovens e Adultos atende hoje apenas 1,5% da demanda. Resgatar essa população exige reconhecer que os motivos para não estudar diferem radicalmente por gênero. Para os homens, o principal obstáculo é o trabalho. Para as mulheres, são os filhos e as responsabilidades de cuidado. Sem oferta de creches, horários flexíveis e modelos que conciliem estudo, trabalho e família, qualquer programa de retorno alcançará apenas uma fração de quem precisa”, pontua o estudo.
O grupo sem educação básica não é homogêneo. A pesquisa identifica três perfis geracionais distintos:
O estudo argumenta que essas diferenças não são acidentais e refletem diferentes políticas públicas que falharam em alcançar todas as gerações de forma equânime.
“Sem ação simultânea para reincorporar quem já saiu e reter quem ainda está, o contingente de baixa escolaridade continuará sendo renovado pelas gerações mais jovens. O problema, como se verá, não é a ausência de políticas, e sim a cobertura restrita dessas políticas — o que permite a persistência de baixas taxas de escolarização, principalmente entre as gerações mais velhas”, destaca.
A oferta de educação básica para adultos varia drasticamente conforme o território, o que exige respostas planejadas localmente. As regiões Norte e Nordeste concentram os maiores índices de jovens e adultos fora da escola sem conclusão da educação básica. Ainda assim, áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste também apresentam proporções elevadas de não escolarizados.
De acordo com a pesquisa, a EJA alcança apenas 1,5% da demanda potencial do Brasil. Ou seja, muitas pessoas que poderiam retomar os estudos não o fazem por falta de acesso à modalidade. A baixa cobertura é uma questão nacional: Alagoas, o estado com a maior taxa de cobertura, atende apenas 4,1% do público-alvo, enquanto Mato Grosso do Sul registra a menor taxa nacional, com 0,7%.
A Rede EJA e Inclusão Produtiva é composta pela Fundação Roberto Marinho, Ação Educativa, Ashoka, Conhecimento Social – Estratégia e Gestão, Conselho Nacional do Sesi, Fundação Arymax, Fundação Bradesco, Fundação Itaú – Itaú Educação e Trabalho, GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, Instituto Rodrigo Mendes, Pacto Global, Redes da Maré, Todos Pela Educação, Unesco, Unicef e United Way Brasil – Juventudes Potentes.
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