O que o processo de convocação dos 26 jogadores para a Copa do Mundo por Carlo Ancelotti pode ensinar ao Brasil nas eleições de 2026

A camisa 10 nunca representou apenas talento. Ela concentra expectativa, responsabilidade, esperança coletiva e a permanente ilusão de que alguém será capaz de resolver sozinho problemas complexos demais para qualquer indivíduo. No futebol brasileiro, essa lógica atravessa gerações. Na política, tornou-se praticamente um modelo de funcionamento nacional.

O Brasil parece ter desaprendido a confiar em sistemas, instituições e projetos coletivos. Passou a acreditar quase exclusivamente em protagonistas. A política brasileira virou refém da camisa 10.

Não por acaso, o debate público nacional se organiza hoje muito mais em torno de personagens do que de estruturas. A lógica dominante deixou de ser a construção de consensos mínimos ou estratégias de longo prazo. O centro gravitacional passou a ser a capacidade de capturar atenção, mobilizar emocionalmente multidões e sustentar presença permanente no ambiente digital.

O futebol ajuda a explicar esse fenômeno porque a seleção continua sendo um dos poucos espaços em que o brasileiro aceita discutir mérito, pressão, desempenho e liderança sem filtros ideológicos absolutos. E a manutenção de Neymar como camisa 10 revela algo profundo sobre o país: diante da insegurança, recorremos ao ativo emocional disponível de imediato.

Carlo Ancelotti, experiente multicampeão, sabe que seleções sob pressão extrema tendem a buscar referências capazes de organizar psicologicamente o ambiente, ainda que isso produza dependência excessiva. A política brasileira parece presa exatamente ao mesmo mecanismo.

Em graus diferentes, Lula e Bolsonaro se tornaram camisas 10 permanentes da vida nacional. Um pela memória afetiva, pela narrativa social construída ao longo de décadas e pela capacidade de reorganizar emocionalmente parcelas profundas do eleitorado. Outro pela mobilização digital contínua, pela lógica de confronto e pela habilidade de monopolizar o debate público mesmo fora do poder. Ambos ultrapassaram os limites tradicionais de seus próprios campos políticos e passaram a funcionar como polos emocionais permanentes do país.

O problema é que sistemas excessivamente dependentes de protagonistas tendem a se tornar frágeis. A hiperpersonalização pode até criar mobilização rápida, mas raramente constrói estabilidade duradoura. O Brasil entrou há anos numa era “neymarizada” da política, em que a capacidade de monopolizar atenção frequentemente vale mais do que a construção silenciosa de instituições sólidas.

O resultado é um país permanentemente tensionado entre adoração e rejeição, torcida e ressentimento, espetáculo e frustração. Como no futebol, o debate deixa de ser sobre organização coletiva e passa a girar em torno da pergunta obsessiva: quem vai decidir o jogo sozinho?

Existe aí um paradoxo importante. O Brasil talvez seja um dos países mais talentosos do mundo em recursos naturais, agronegócio, energia, criatividade humana e capacidade de adaptação. Ainda assim, frequentemente atua como uma seleção desorganizada, excessivamente dependente de lampejos individuais e incapaz de transformar potencial em projeto consistente de longo prazo.

A própria evolução do futebol moderno oferece um alerta. As equipes mais vencedoras do mundo se tornaram menos dependentes de gênios isolados e mais estruturadas em organização, intensidade, equilíbrio emocional e previsibilidade coletiva. O craque continua importante, mas já não sustenta sozinho temporadas inteiras.

O problema da camisa 10 é que ela resolve jogos. Mas não constrói temporadas.

Talvez seja exatamente esse o dilema brasileiro. Continuamos procurando salvadores capazes de decidir partidas impossíveis enquanto negligenciamos aquilo que sustenta nações competitivas: instituições confiáveis, estabilidade regulatória, educação consistente, produtividade, coordenação política e capacidade de planejamento.

A camisa 10 brasileira deixou de simbolizar apenas organização do jogo. Passou a representar concentração absoluta de expectativa nacional.

Nenhum país de 215 milhões de habitantes deveria depender emocionalmente de tão poucos protagonistas.

Marcello D'Angelo Marcello D’Angelo, 59 anos, é jornalista, consultor em comunicação e gestão estratégica. Foi secretário especial de Comunicação da cidade de São Paulo. Comandou a comunicação de empresas como Telefônica, Walmart, Embraer e Cosipa/Usiminas e liderou como principal executivo a Rádio BandNews FM, Canal AgroMais, Jornal Metrô, Gazeta Mercantil e BandNews TV. Escreve para o Poder360 semanalmente às quintas-feiras.

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