Resumo O reservatório, localizado na bacia do Alto Jaguaribe, transbordou na manhã desta quarta-feira, 15, após atingir 88,93% de sua capacidade na noite anterior. Oficialmente chamado de Barragem Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, o Orós é o segundo maior reservatório do Ceará, com capacidade de 1,94 bilhão de metros cúbicos. Atualmente, 26 açudes estão sangrando no Ceará, enquanto outros três apresentam volume acima de 90% e 31 permanecem abaixo de 30%. Além do Orós, a lista de reservatórios que transbordaram inclui nomes como Angicos, Caldeirões, Gameleira, Jenipapo e Rosário.

O açude Orós, localizado na bacia do Alto Jaguaribe, sangrou na manhã desta quarta-feira, 15. Conforme o Portal Hidrológico do Ceará, da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), o volume alcançou 88,93% da capacidade total da barragem nessa terça e agora chegou a seu máximo.

Imagens feitas pela Prefeitura de Orós mostram a água vertendo pela parede do reservatório. Nas redes sociais, a gestão municipal celebrou o momento: "O açude sangrou nesta quarta-feira 15 de abril, trazendo alegria, esperança e renovação para o nosso povo".

Embora tenha alcançado seu volume máximo, a sangria do açude ainda ocorre em baixo nível. A expectativa é de que a lâmina de água vertendo aumente ao longo do dia.

No Ceará, outros 25 açudes estão sangrando atualmente (veja lista abaixo) e três possuem volume acima de 90% (Arneiróz II, em Arneiróz; Tucunduba, em Senador Sá; e Mundaú, em Uruburetama). Despontando no outro extremo, 31 apresentam volume inferior a 30% de suas capacidades.

Nomeado como Barragem Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, o açude Orós é o segundo maior reservatório do Ceará, perdendo apenas para o Castanhão.

Construído na década de 1960, o represamento das águas do rio Jaguaribe tem capacidade de armazenamento de 1,94 bilhão de metros cúbicos. O reservatório tem múltiplos usos, como a perenização do rio, a irrigação das regiões do Médio e Baixo Jaguaribe e a piscicultura.

Desde o final de fevereiro deste ano, conforme definido pelos os Comitês de Bacia dos Vales do Jaguaribe e Banabuiú, a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) faz a transferência das águas do Orós e do Castanhão para o sistema integrado que atende Fortaleza e municípios da Região Metropolitana.

Em 2025, por volta das 22h30min de 26 de abril, a sangria do açude marcou o primeiro transbordamento em 14 anos.

Veja lista dos demais 25 açudes que estão sangrando no Estado:

Entre mergulhos profundos e pescarias familiares, a sangria do açude Orós evoca esperança nos corações cearenses.

No dia 15 de março de 1978, a manchete d’O POVO noticiava a primeira das 14 sangrias do açude Orós desde sua inauguração, datada de 1961, conforme levantamento da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).

Além dessas, há a sinalização de outras possíveis duas sangrias: 1964 e 1974. O POVO procurou o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca para confirmar a informação, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

A obra, iniciada ainda durante o governo de Epitácio Pessoa (1919-1922), foi interrompida e só retornou durante o mandato de Juscelino Kubitschek (1956-1961). O açude, oficialmente batizado de Juscelino Kubitschek de Oliveira, homenageia o ex-presidente.

Anos antes, em 1960, um cenário pluviométrico que superou as previsões resultou no rompimento de uma parte da barragem, ainda em obras. O episódio impactou diretamente cerca de 170 mil pessoas, o equivalente a 60% da população, e várias cidades da região jaguaribana ficaram alagadas.

Naquela quarta-feira de 1978, a manchete dizia: “Muita chuva e Orós e Araras estão sangrando”.

Hoje aos 78 anos, o agricultor aposentado Sebastião Alves de Santiago relembra que, à época, intensas precipitações na região chegaram a causar medo na população, como aconteceu em 1985.

“O povo tinha muito medo de acontecer de novo [o rompimento]. Era um assombro medonho (...) Quando eu fui em 1986 para Orós, um rapaz que trabalhava lá, quando eu tava perguntando, querendo informação, o cara disse que o Orós tinha sangrado com 14 metros, se não me engano; só que não poderia ser divulgado, porque poderia assombrar o povo”, conta.

Sua lembrança mais marcante no açude data de 1986. Naquele ano, o agricultor embarcou em um pau-de-arara a convite de uma amiga. O grupo de viajantes era grande e ansiava acompanhar a sangria do Orós.

A primeira parada foi a parede do sangradouro, próximo a escada. De lá, conseguiu assistir a queda d’água. “É muito bonita a água caindo e aquele véu de água branca”, relembra.

O Açude Orós é um dos pilares da segurança hídrica no Ceará, como explicou ao O POVO em 2025 Francisco de Assis Souza Filho, coordenador do Centro Estratégico de Excelência em Políticas de Águas e Secas (Cepas), da Universidade Federal do Ceará (UFC), e Cientista Chefe Recursos Hídricos do Governo do Ceará.

O pesquisador destaca a grande capacidade de armazenamento de água do reservatório, que totaliza 1,94 bilhão de m³, garantindo suporte não apenas para períodos chuvosos, mas, sobretudo, para enfrentar longas estiagens.

“Para a população significa segurança hídrica. Exatamente para os usos da água; seja um abastecimento urbano, seja o uso para irrigação, seja o uso para a indústria, tem uma sinalização de maior garantia esse processo de investimento nesses grandes reservatórios”, explica.

Construído para suplementar o Rio Jaguaribe e abastecer importantes regiões do Estado, incluindo a Capital, o Orós ainda hoje cumpre papel estratégico. “Como ele é um reservatório muito grande, significa que a gente tem maior segurança hídrica para secas mais prolongadas”, explica. A cada cheia, o açude reafirma sua relevância como símbolo de resistência diante da imprevisibilidade climática do semiárido.

A sangria do Açude Orós em 2025, a primeira em 14 anos, reacendeu a importância histórica e estratégica desse reservatório para o Ceará, não apenas no aspecto técnico, mas também cultural, afetivo e econômico.

“A gente viu, de fato, muita, muita gente mesmo, tanto na parede do açude, vendo a beleza do reservatório cheio, como também nos restaurantes, balneários, passeios de barco. Isso mostra sua importância não só na segurança hídrica, mas também no turismo e comércio da região”, ressalta Wellinton de Souza Ferreira, gerente regional da Bacia do Alto Jaguaribe.

“O reservatório, pela sua grandiosidade, representa não só sustentabilidade e segurança no abastecimento. O pessoal que mora lá se sente mais seguro, porque sabe que não vai faltar água, que vai ter peixe nos rios, vai ter água para ter uma segurança até econômica (...) A gente vem saindo de uma seca dos últimos anos; nesses últimos 4, 5 anos, estamos tendo essa recuperação e traz uma segurança enorme, pois, podemos dizer que até 2030, mais ou menos, a gente tem água para atendimento”, garante.

(Com Gabriele Félix. Colaboraram Kaio Pimentel e Marcela Tosi)