Uma novidade do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) de 2026 apavorou os alunos de 3º ano do ensino médio: a edição seria a primeira em que os candidatos poderiam usar as notas das últimas três edições do Enem para tentar uma vaga nas universidades públicas. Com isso, os estudantes projetaram que a competição aumentaria e, portanto, as notas de corte também subiriam. Assim nasceu a ideia de que esse seria o Sisu mais difícil da história, e um questionamento foi repetido à exaustão nas escolas: “Justo no meu ano?”. Mas isso ocorreu mesmo? O GLOBO mostra que, de fato, as médias cresceram na maior parte dos cursos na ampla concorrência, mas sem tanta intensidade, e que as vagas foram dominadas por quem fez o Enem 2025.

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O Sisu em 2026 ficou mais difícil do que nos anos anteriores à mudança?

A nota de corte é a pontuação mínima exigida de um curso para que um candidato seja aprovado. Se ela subir, significa que é mais difícil conseguir uma vaga. Se cair, é mais fácil. Em 2026, a média das notas de corte aumentou na ampla concorrência. No entanto, o impacto foi moderado. Entre as 50 graduações mais oferecidas no Sisu, houve um aumento médio da nota de corte de 43 pontos em relação a 2025. No entanto, na comparação com 2024, foi de apenas 7. Além disso, em 14 desses 50 cursos, foi mais fácil passar em 2026 do que em 2024 — nesse grupo, estão, por exemplo, Medicina, Psicologia, Engenharia Ambiental e Arquitetura.

E o que aconteceu nas vagas para os cotistas?

Em relação a 2025, ficou mais difícil conseguir uma vaga reservada aos cotistas em 49 dos 50 cursos mais oferecidos no Sisu. Ou seja, em todos eles a nota de corte aumentou. No entanto, na comparação com 2024, um dos anos que teve as maiores médias considerando o período entre 2022 e 2026, se deu o oposto: as 50 graduações analisadas tiveram queda deste patamar mínimo de desempenho para conseguir ser aprovado.

Tudo isso foi causado pelas mudanças do Enem?

De acordo com especialistas, o uso de notas de edições anteriores do Enem no Sisu foi a principal causa para o aumento da nota de corte em 2026 na ampla concorrência.

— São mais notas concorrendo pelas mesmas vagas das universidades — resume Sabrina Oliveira, professora especialista em Enem e Sisu.

No entanto, outros fatores podem influenciar esses patamares. De acordo com o MEC, estão nessa lista a quantidade de vagas oferecidas em determinado ano, o perfil dos candidatos, as ações afirmativas que estão vigentes naquele momento, a distribuição das escolhas por curso, turno, campus e modalidade de concorrência, além dos pesos definidos por cada instituição que podem variar ao longo do tempo.

Por que houve essa variação entre as vagas para cotistas?

A mudança do Sisu em 2026 foi a mais significativa dos últimos anos, mas não foi a única. Em 2025, aponta Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais da Arco Educação, houve uma outra alteração importante causada pela renovação da Lei de Cotas.

— Todos os candidatos passaram a concorrer primeiro na ampla concorrência. Isso significa que alunos com perfil de cotista e notas muito altas passaram a ocupar vagas da ampla concorrência, deixando as vagas reservadas para outros candidatos cotistas com notas menores — explica.

De acordo com ele, esse é um dos fatores que fizeram as notas de corte de 2024 entre cotistas ser tão mais alta do que nos anos seguintes — já que ela tira os melhores alunos da reserva de vagas e os coloca na ampla concorrência.

Já a professora Sabrina Oliveira lembra outra mudança em 2024 que impactou tanto cotistas quanto a ampla concorrência. Em 2024, havia ainda 16 instituições de ensino com programas de bônus regionais. Com isso, alunos que vivem na cidade ou no entorno de onde ficam essas universidades, concentradas no Norte e Nordeste, recebiam pontos a mais em suas inscrições — o objetivo era de que mais pessoas locais ocupassem as vagas disponíveis. Assim, as notas de corte subiam; e o fim dessa política também contribuiu para a queda em 2025.

A concorrência realmente aumentou em 2026?

Sim. De acordo com o Ministério da Educação, subiu em 146% o número de candidatos aptos e em 39% o número de inscrições no Sisu. Com isso, segundo avaliação preliminar do ministério, a mudança contribuiu para reduzir as vagas ociosas — ainda não há dados fechados sobre o tamanho desse impacto. Por isso, o governo “avalia positivamente a nova regra do Sisu 2026”.

Quem conseguiu as vagas usou as notas antigas ou as obtidas em 2025?

Segundo a pasta, 76% dos aprovados usaram notas obtidas em 2025. Em Medicina, esse patamar sobe para 90%. Por isso, o MEC entende que os alunos que fizeram a prova no ano passado não foram prejudicados. “Ao reduzir vagas ociosas, a nova regra está ampliando o aproveitamento da oferta pública de educação superior”, alega o ministério.