A formação continuada é o processo de atualização e aperfeiçoamento dos professores ao longo de suas carreiras
A constante busca por melhora é comum na maioria das profissões, e não é diferente no mundo da educação, educadores estão sempre atrás de novos conhecimentos e desenvolver suas habilidades dentro e fora da sala de aula. Pensando nisso, a formação continuada é o processo permanente de atualização e aperfeiçoamento dos saberes e habilidades dos professores ao longo da carreira.
Ela é essencial para garantir a qualidade do ensino, permitindo que os educadores inovem e atualizem suas práticas pedagógicas e acompanhem as rápidas transformações sociais e tecnológicas. Essa etapa deve ser realizada após o término da formação inicial do profissional e precisa ser constante para assegurar um processo de ensino-aprendizagem cada vez melhor dentro da instituição de ensino.
Entretanto, como todas as etapas de ensino no Brasil, esse sistema apresenta falhas e gargalos, que envolvem obstáculos sistêmicos e metodológicos. Os principais entraves são a falta de tempo para profissionais se aperfeiçoarem e cumprirem longas cargas horárias, que incluem atividades extracurriculares, correções e preparação de materiais, alto custo dos cursos, falha de alinhamento entre o que é aprendido pelos professores e a realidade prática na sala de aula e a resistência à inovação, entre outros.
José Sérgio Fonseca de Carvalho, professor e diretor da Faculdade de Educação da USP, comenta em quais campos houve avanços e em quais não no que diz respeito a garantir que o professor continue se capacitando ao longo da carreira. “No geral, não foi o suficiente, mas avançamos muito ao deslocar esse problema para pensar a formação continuada do professor em diálogo com a realidade concreta na qual ele está inserido. Ou seja, o êxito de cursos de extensão dependem da unidade de ensino.”
Para o professor, é um erro enxergar a educação continuada apenas como extensão da formação inicial. Hoje o principal polo de capacitação ocorre no cotidiano das escolas públicas, liderado por coordenadores pedagógicos em reuniões com os docentes. “Toda vez que a Universidade se abre, acolhe esses professores da rede, que vêm para cá fazer pós-graduação. Este contato indireto vai ter profundo impacto lá”, explica. Assim, o ensino superior transforma o chão de giz de forma indireta, transformando esses profissionais em multiplicadores.
Apesar das melhoras, os professores enfrentam diversas adversidades para permanecerem ou até continuarem seus cursos de extensão. “Existem desafios que relacionam-se com a própria estrutura da rede pública, baixa remuneração, poucos cursos de mestrado profissional e cargas horárias excessivas, que condicionam negativamente a disponibilidade e o ânimo dos docentes para aperfeiçoarem-se. Além disso, falta um incentivo, um plano de carreira que, de fato, valorize essa educação e que possa, portanto, fazer com que para o professor também seja interessante cursar isso.”
Os cursos de mestrado profissional são essenciais pois há uma demanda muito grande de professores da rede para continuar estudando. Contudo, Carvalho ressalta que professores não necessariamente almejam uma formação acadêmica. Eles querem, muitas vezes, ter conhecimentos que os ajudem em desafios cotidianos. “E para isso, a universidade teria que caminhar em direção a uma oferta maior de mestrados profissionais que se voltassem para esse tipo de trabalho. Temos que nos antenar a essas novas demandas da sociedade, visto que a maioria dos professores formaram-se há 20 anos.”
“Nosso tempo é marcado por mudanças muito rápidas. Houve uma aceleração das transformações sociais, culturais de tudo que sabemos. E, com isso, práticas que estavam até então solidificadas tornam-se obsoletas. Esse grau de obsolescência a que estamos sujeitos é algo que nós não estamos dando conta, não só na formação continuada, mas nas vidas privadas. Então eu temo que a humanidade transporte acriticamente algo que funciona no campo da tecnologia para o campo da formação humana, pois ele exige um respeito por esse legado do passado”, afirma o especialista.
Para incentivarmos o futuro dos profissionais da educação e seu desenvolvimento constante ao longo dos anos é necessário entender sua relevância. “O significado de uma ação de formação continuada não precisa ser necessária e imediatamente a sua aplicabilidade. Ela dá ao professor a oportunidade justamente de habitar outros ambientes para sentir a real importância do estudo. Formação continuada é oferecer a esses docentes que têm um cotidiano tão difícil, um tempo e um espaço de produção de conhecimento e conhecimento do mundo. E um professor que passa por esse processo de alargamento da sua compreensão do mundo é o melhor professor”, finaliza.
*Andrey Furmankiewicz, estagiário sob a supervisão de Cinderela Caldeira
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