Quando o Irã fechou o Estreito de Ormuz e o preço do petróleo voltou a ditar decisões de governos e mercados, caiu uma ilusão conveniente. Três décadas de otimismo globalista preferiram não ver o que sempre esteve lá: o mundo físico, com suas rotas, recursos e fronteiras, nunca saiu de cena.

O mundo não está em crise. Está entrando em uma fase mais dura, mais instável e menos previsível. Bastou o estrangulamento de uma rota crítica para que preços de petróleo, gás e fertilizantes disparassem e o risco voltasse ao centro de tudo.

O que parecia exceção voltou a ser regra.

Nem mesmo países altamente organizados escaparam. No Golfo, eficiência não compensou a geopolítica. No Ocidente, a relação entre Estados Unidos e Europa expôs fissuras que estavam apenas disfarçadas. Interesses que pareciam alinhados se revelaram apenas coincidentes.

A ordem global não está sendo ajustada. Está sendo redesenhada sob pressão. E isso muda tudo.

Não vivemos mais sob trajetórias previsíveis. Vivemos sob a colisão entre energia, tecnologia, clima, capital e poder. As tendências isoladas perderam valor. O que define o jogo são as intersecções entre elas, combinadas com choques que ninguém controla.

É nesse mundo que o Brasil deveria se afirmar. Mas não se afirma.

O país reúne condições raras. Escala territorial, potência agrícola, base energética diversificada, sistema financeiro sofisticado. Poucas nações combinam alimento, energia e capacidade ambiental como o Brasil. E, ainda assim, escolhe não liderar.

O Brasil é eficiente na produção e surpreendentemente frágil na estratégia. Produz para o mundo, mas não se impõe como potência. Exporta volume, mas captura pouco valor político, econômico e geopolítico.

É grande demais para ser irrelevante e desorganizado demais para ser decisivo.

Os números confirmam o paradoxo. Em 2025, as exportações do agronegócio atingiram US$ 169 bilhões, quase metade de tudo que o país exportou. No mesmo período, o Brasil foi o segundo maior destino de investimento estrangeiro direto do mundo, atraindo US$ 77 bilhões. O mundo aposta no Brasil. O Brasil não aposta em si mesmo.

O agronegócio já deixou de ser apenas produtivo. Tornou-se uma plataforma estratégica que conecta alimento, energia, carbono e influência global. Em um mundo pressionado por choques de oferta, isso deveria ser tratado como política de Estado.

Não é. Produzimos como líderes, mas pensamos como fornecedores.

E quando somos chamados a decidir o futuro, revelamos o tamanho do problema.

O Supremo Tribunal Federal retomou neste mês de março o julgamento da ADPF 342, ação proposta pela Sociedade Rural Brasileira em 2015, sob minha presidência, questionando se empresas brasileiras com capital estrangeiro majoritário devem ser tratadas como estrangeiras para aquisição de terras rurais. Com cinco votos já formados pela manutenção das restrições, o julgamento foi suspenso antes da decisão final.

O discurso é de soberania. O resultado é mediocridade estratégica. Em um mundo onde centenas de fundos internacionais disputam ativos agrícolas reais, o Brasil responde com restrição, insegurança jurídica e visão curta. Não fortalece a soberania. Afasta capital e limita crescimento.

Protege-se o ativo. Compromete-se o sistema.

Essa mesma limitação define a política brasileira. O Brasil se aproxima das eleições de 2026 sem discutir o que pretende ser. Disputa-se o poder com intensidade e vazio de propósito. Multiplicam-se candidaturas e confrontos. Falta uma visão clara de inserção internacional, desenvolvimento produtivo e segurança econômica.

Não se discute o país. Disputa-se espaço.

O mundo que emerge exige outro tipo de liderança. Exige políticos capazes de compreender cadeias globais, fluxos de energia, dinâmica de alimentos e tensão entre grandes potências. Exige decisão sob incerteza e direção em meio ao ruído.

O Brasil não sofre de falta de recursos. Sofre de uma recusa persistente de escolher uma direção. E direção não surge por acaso. É construída por lideranças que entendem o tempo em que vivem.

O mundo está se reorganizando. Espaços estão sendo abertos e ocupados por quem tem clareza, coordenação e ambição. O Brasil ainda pode ocupar um lugar central nesse novo arranjo. Mas não ocupará por inércia. Nem por discurso. Nem pela memória do que já foi.

A história não espera países indecisos. O eleitor de 2026 não está escolhendo apenas um governante. Está escolhendo se o Brasil vai ser sujeito ou objeto da próxima ordem global.

Porque, no fim, não são as tendências que definem o destino. São as escolhas feitas quando o mundo muda e exige decisão.

Gustavo Diniz Junqueira é empresário e foi secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo