Dê uma olhada no mercado de ações, e tudo parece bem na economia brasileira. O Ibovespa subiu mais do que qualquer outro grande índice nas Américas no último ano — quase 60% em termos de dólar até a última contagem. Mas, dentro das salas de diretoria e em pequenas lojas e cafés por todo o país, o cenário é bem mais sombrio. Com os custos de empréstimos próximos de um pico de duas décadas e o crédito cada vez mais escasso, um número historicamente alto de empresas está lutando para manter as portas abertas.
De volta à crise: O que fez a Casa & Video voltar a pedir recuperação judicial quase duas décadas depoisRaízen: Pedido de recuperação extrajudicial se tornou o maior da história do país
O exemplo mais recente de uma empresa lidando com crescente pressão financeira surgiu na semana passada, quando a operadora hospitalar Kora Saúde entrou com um pedido de reestruturação de dívida extrajudicial. É o mesmo destino que dois pesos-pesados corporativos — a produtora de biocombustíveis Raízen e a rede de supermercados Companhia Brasileira de Distribuição (GPA), dona da rede de supermercados Pão de Açúcar— haviam enfrentado semanas antes.
Grande parte do impacto recaiu sobre as empresas menores, um grupo que responde por quase 30% da maior economia da América Latina. Mais de oito milhões delas estão agora atrasadas em seus pagamentos de dívidas.
Entenda: Por que a dona do Pão de Açúcar pediu recuperação extrajudicial?
De muitas formas, dizem especialistas, esse acerto de contas era inevitável, uma consequência natural da onda de endividamento desencadeada pela pandemia. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, isso ocorre no pior momento possível.
Cresce a preocupação de que a crise corporativa comece a se espalhar pela economia mais ampla justamente quando Lula faz seu apelo final aos eleitores para ser reeleito em outubro. Empatado com o candidato da oposição nas pesquisas, Lula começou a lançar medidas para proteger as famílias dos efeitos indiretos.
— Isso é essencialmente a ressaca da pandemia — disse Rafael Nogueira, sócio-gestor da Chimera Capital.
Alternativa: Empresas recorrem cada vez mais à recuperação extrajudicial para evitar custos elevados e negociar individualmente com credores
A alta da bolsa é enganosa, afirmou ele, porque o mercado é dominado por um pequeno grupo de empresas muito fortes.
— As empresas de médio porte que formam a espinha dorsal da economia brasileira não estão necessariamente listadas na Bolsa, e muitas delas agora estão excluídas dos mercados de capitais — acrescentou Nogueira.
Quando formuladores de políticas reduziram os custos de empréstimos a um nível recorde durante a pandemia, as empresas recorreram massivamente ao crédito — que no Brasil costuma ter taxas flutuantes — às vezes para sobreviver, mas muitas vezes para financiar uma expansão agressiva. Agora, com as taxas em dois dígitos e o crescimento econômico sem acompanhar esse ritmo, mais empresas estão encontrando dificuldades para rolar suas obrigações.
Juros altos, investimentos bilionários e retorno abaixo do esperado: Entenda os motivos da crise da Raízen
Um número recorde de 8,9 milhões de empresas tem dívidas em atraso, totalizando cerca de R$ 213 bilhões (US$ 43 bilhões) até março, segundo a provedora de dados Serasa Experian. A grande maioria são pequenas empresas.
Até agora, a confiança do consumidor e o emprego estão se mantendo, e os investidores não veem riscos sistêmicos. A alta dos preços dos combustíveis, como resultado da guerra no Irã, tem beneficiado alguns dos grandes produtores de commodities do país, atraindo investimento estrangeiro e ajudando a levar o Ibovespa a um recorde no mês passado.
Mas os custos mais elevados de energia estão dificultando que o banco central reduza as taxas o suficiente para promover uma melhora significativa para os tomadores de crédito. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a taxa básica em um quarto de ponto pela segunda reunião consecutiva, para 14,5%, ao mesmo tempo em que sinalizaram que novos cortes não são garantidos em meio à aceleração da inflação.
"É cedo demais para afirmar que já vimos o pior momento” em relação ao número de empresas buscando proteção judicial, disse Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.
— Os cortes de juros atualmente precificados são insuficientes para provocar uma reversão no mercado de crédito.
Empresas asfixiadas: Com juro alto, dívida dispara e pressiona o caixa
As taxas elevadas também estão pressionando as famílias, que estão comprometendo cerca de 30% de sua renda com o pagamento de dívidas, um dos níveis mais altos da última década, segundo dados do banco central. O governo acaba de lançar o novo Desenrola, programa para renegociar dívidas das famílias, oferecendo juros mais baixos e descontos que variam de 30% a 90% sobre o valor total devido, entre outras medidas.
— Eu compararia a situação das famílias com a das pequenas e médias empresas — disse João Mário Santos de França, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, uma unidade da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A onda de empresas em dificuldade ocorre no momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu sua vantagem nas pesquisas sobre o senador Flávio Bolsonaro desaparecer, em meio à inflação persistente e ao crescimento lento. No início deste ano, Lula convocou empresas envolvidas nas negociações para socorrer a Raízen, sinalizando sua preocupação com as consequências para a confiança dos investidores e para a economia.
Embora o governo esteja monitorando de perto o aumento do estresse corporativo, autoridades relutam em intervir diretamente, com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmando que empresas altamente endividadas devem negociar com credores.
Na Chimera Capital, que se especializa em empréstimos para empresas em dificuldade, Nogueira diz que está vendo a linha entre tomadores saudáveis e problemáticos começar a se confundir. Ultimamente, ele tem recebido consultas de empresas mais saudáveis que foram rejeitadas por bancos.
— Isso não deveria acontecer. Nosso dinheiro é destinado a situações de estresse — disse Nogueira.
Empresas que assumiram altos níveis de endividamento em 2020 e 2021, depois que o Banco Central reduziu a taxa básica Selic para 2%, agora enfrentam dificuldades à medida que os custos mais altos de empréstimos consomem uma fatia maior de seu caixa. E não se espera que essa pressão diminua significativamente tão cedo, com economistas prevendo que a Selic permanecerá acima de 10% até 2027.
Esse cenário reflete o que a Kora Saúde está enfrentando. A empresa se expandiu quando as taxas estavam próximas das mínimas, adquirindo operações em vários estados e quase dobrando sua receita nos últimos cinco anos.
Mas agora, sua estrutura de capital está “desequilibrada”, afirmou Alexandre Augusto Olivieri, diretor financeiro e de relações com investidores da Kora, em resposta a perguntas por escrito.
Para quase 6.000 empresas, o estresse chegou ao ponto de levá-las ao que se conhece como recuperação judicial — uma forma de reestruturação supervisionada pela Justiça — até o fim de março, o nível mais alto nos dados da RGF & Associados, que começam em 2023.
A pressão, embora preocupante, ainda é vista mais como um aperto de crédito localizado. Mas, à medida que mais empresas sofrem sob o peso de suas dívidas, reduzindo investimentos, encolhendo sua presença e atrasando pagamentos ao longo das cadeias de suprimentos — alguns apontam o risco de uma espiral negativa que corrói a renda, enfraquece a demanda e aumenta a pressão sobre a economia.
— Estamos no meio de uma tempestade — disse Flávio Málaga, sócio da consultoria Málaga & Associados. —As taxas de juros elevadas estão consumindo tudo o que as empresas geram.
%2Fhttps%3A%2F%2Fi.s3.glbimg.com%2Fv1%2FAUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8%2Finternal_photos%2Fbs%2F2026%2Fe%2FX%2FCoTotkSDSQBGS7pHjrpg%2Fempresas-endividadas-brasil-1.jpg&w=3840&q=75)