Um estudo abrangente realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) revela um cenário preocupante para a saúde pública brasileira: cerca de 120 mil mortes foram associadas a ondas de calor nos últimos 20 anos. A pesquisa, que analisou dados de 5.566 municípios, destaca que os períodos de temperaturas extremas representam um risco significativo para a população, com idosos, indivíduos com doenças respiratórias preexistentes e pessoas de menor escolaridade sendo os grupos mais vulneráveis.

As análises detalhadas indicam uma ligação consistente entre a exposição ao calor intenso e o aumento da mortalidade. Além dos óbitos, o estudo também identificou um agravamento na morbidade hospitalar. Houve um aumento expressivo nas internações por doenças respiratórias, como pneumonia, e por enfermidades geniturinárias, incluindo insuficiência renal, em praticamente todas as regiões do país. Em crianças com menos de 10 anos, as gastroenterites se destacaram como a principal causa de hospitalização associada ao calor extremo, reflexo da maior vulnerabilidade à desidratação e das alterações ambientais que afetam a qualidade da água e a conservação de alimentos.

Para a população com mais de 60 anos, a pesquisa apontou uma alta sensibilidade para o desenvolvimento ou agravamento de doenças respiratórias, renais e metabólicas, como o diabetes. Eventos cardiovasculares durante ondas de calor também demonstraram uma evolução rápida para quadros graves, com risco de morte antes mesmo da chegada ao hospital. Esses achados reforçam a necessidade urgente de políticas públicas direcionadas, que considerem as especificidades de cada faixa etária e condição de saúde.

Os pesquisadores, que contaram com a cooperação técnica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ressaltam a importância de integrar informações climáticas às ações de vigilância epidemiológica e ambiental. Eles defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta antecipado para ondas de calor, bem como o avanço em ações de adaptação à mudança climática, visando a construção de cidades mais verdes e resilientes. Os resultados evidenciam que o calor extremo não é apenas um problema ambiental, mas uma crise de saúde pública com impactos sociais e econômicos relevantes.