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7.jul.2026 às 22h00 Edição Impressa Diminuir fonte Aumentar fonte Newton Kara José Junior Professor da Faculdade de Medicina da USP e da Faculdade de Medicina Sírio-Libanês; conselheiro do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo); e autor de 'O Ensino da Oftalmologia no Século 21'
A divulgação dos resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) trouxe números que confirmam uma preocupação antiga: o Brasil ampliou o número de escolas médicas e de estudantes sem garantir condições adequadas de formação. O resultado é alarmante. Somente em 2025, cerca de 13 mil formandos apresentaram desempenho insatisfatório e estão prestes a iniciar a prática médica. A pergunta inevitável é simples: quem assumirá o risco dessa formação deficiente? A resposta também é simples: a sociedade.
A maior parte desses novos médicos atuará em clínicas vinculadas a planos de saúde ou no Sistema Único de Saúde (SUS), onde o paciente não escolhe o profissional que o atenderá. Em muitos casos, resta apenas aceitar o médico disponível. As consequências tendem a aparecer rapidamente. Consultas menos resolutivas aumentam a solicitação de exames complementares, elevando os custos do sistema de saúde. Falhas no exame físico e no raciocínio clínico favorecem erros diagnósticos e tratamentos inadequados. O impacto não é apenas econômico, mas também humano.
Compreender o problema exige reconhecer que a responsabilidade não é exclusiva das faculdades. A medicina tornou-se um curso altamente atrativo não apenas por vocação, mas também pela segurança de inserção profissional imediata. Diferentemente de outras carreiras, o médico recém-formado encontra ampla oferta de trabalho, especialmente em plantões e de imediato atinge a remuneração média da classe, mesmo sem especialização ou avaliação formal de suas competências.
No Brasil, basta possuir o diploma para exercer a medicina. Na prática, quem consegue pagar uma faculdade garante acesso ao mercado de trabalho. Nesse ambiente, reduz-se o incentivo para que instituições aprimorem o ensino e para que alunos se comprometam com o aprendizado.
Ensino e aprendizagem não são conceitos equivalentes: o ensino corresponde à transmissão de conhecimentos; a aprendizagem, por sua vez, é o processo individual de internalização desse conteúdo. O ensino constitui o meio e depende da instituição; a aprendizagem é o objetivo final e depende do aluno.
Por isso, ganha força a defesa de um exame nacional obrigatório de proficiência como requisito para o exercício profissional. A medida estimularia estudantes a assumirem responsabilidade pelo próprio aprendizado e compeliria escolas médicas a garantirem formação efetiva.
Críticos afirmam que tal exame penalizaria somente o aluno que não conseguiu aprender, e não a instituição que não ofereceu ensino adequado. No entanto, avaliações progressivas ao longo do curso permitiriam identificar dificuldades precocemente, oferecendo tempo para correção da trajetória acadêmica. O estudante poderia reforçar sua formação, estudar mais, mudar de instituição ou até reconsiderar sua escolha profissional antes da conclusão do curso.
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Atualmente o Brasil forma médicos, mas não garante que saibam exercer a medicina. O governo regula prédios, vagas, carga horária e currículos, mas ignora o resultado final do processo educacional. Confunde ensino com aprendizagem. Ensinar é oferecer conteúdo; aprender é adquirir competência. O sistema brasileiro fiscaliza o primeiro e presume, sem evidência, o segundo. É necessário garantir algo muito mais essencial: que o aluno tenha aprendido a ser médico de fato e não somente por direito.
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