Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires
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17.out.2026 às 12h00 Diminuir fonte Aumentar fonte A Frente Ampla está com os olhos no dia 25; o governo de Yamandú Orsi já pensa no dia 26. Enquanto a coalizão governista de esquerda uruguaia torce pela reeleição de Lula, integrantes da gestão de Orsi procuram saber quem poderia ocupar os principais cargos de um eventual governo de Flávio Bolsonaro.
Em Montevidéu, há preocupação sobretudo com quem comandaria a política externa brasileira, com o futuro do Mercosul e com a orientação que o maior país da América do Sul daria às relações com seus vizinhos.
Os dois relógios correm ao mesmo tempo. Orsi não esconde a proximidade com Lula, a quem chama de amigo. Mas governa um país pequeno, para o qual uma mudança política no Brasil teria consequências muito maiores do que a perda de um aliado ideológico.
O primeiro turno acendeu o alerta. Integrantes da administração uruguaia consideram que, entre as mudanças políticas à direita na região, uma virada também no Brasil seria a de maior peso para o país.
A inquietação contrasta com a imagem de refúgio progressista que setores da esquerda latino-americana projetam sobre o Uruguai, diante da aproximação de vários governos da região com Donald Trump. Enquanto alguns imaginam o país como exceção ideológica, quem o governa se prepara para negociar com um mundo cada vez menos parecido com o seu.
O contraste aparece dentro da própria Frente Ampla. Fernando Pereira, presidente da coalizão, definiu a disputa brasileira como uma escolha entre "democracia e barbárie".
Orsi tratou de marcar uma diferença. "O governo é o governo, e a força política é a força política", afirmou.
A distinção não é apenas retórica. Flávio Bolsonaro já defendeu a saída do Brasil do Mercosul. O Brasil é o segundo maior destino das exportações uruguaias, atrás da China, e uma ruptura no bloco atingiria uma relação econômica que nenhum governo em Montevidéu pode tratar como questão ideológica.
Em entrevista recente à Folha, o chanceler Mario Lubetkin procurou afastar o cenário mais grave. Lembrou que existem tantos compromissos empresariais interligados que uma saída brasileira do bloco seria difícil e custosa.
Mas Orsi não precisa olhar apenas para Brasília. O avanço de Trump sobre a América Latina já alterou o ambiente em que o Uruguai tenta preservar sua autonomia.
Quando o presidente americano lançou o Escudo das Américas sem convidar o país, Orsi não reagiu fechando as portas. Se mostrou disposto a cooperar no combate ao narcotráfico. Também se aproximou do presidente chileno, José Antonio Kast, numa iniciativa regional de segurança.
Ao mesmo tempo, o governo uruguaio assiste à ingerência americana na região e tenta entender até onde ela irá. A diplomacia de Orsi precisa conviver com Trump, preservar o Mercosul e manter a relação comercial com a China.
É aí que a ideia do Uruguai como refúgio ideológico encontra seus limites. A Frente Ampla pode manter suas afinidades. Quem governa precisa lidar com presidentes escolhidos por outros países e com decisões tomadas fora de suas fronteiras.
Lucía Topolansky, ex-vice-presidente e viúva de José Mujica, resumiu o dilema: o Uruguai está "condenado a se dar bem" com todos. Afinal, lembrou, os países não saem do lugar.
No domingo seguinte, os brasileiros escolherão seu presidente. A Frente Ampla pode escolher por quem torcer. Orsi terá de trabalhar com quem vencer.
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