Segundo Reinaldo Domingos, da ABEFIN, a educação financeira não está ligada à finanças, mas sim a comportamento, atitude, renúncias e escolhas.

Conversamos sobre os desafios da educação brasileira no Brasil com Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN).

No dia 5 de novembro, quinta-feira, a ABEFIN vai promover a quinta edição do Congresso Nacional de Profissionais de Educação Financeira (CONAPREF), em São Paulo, para discutir os desafios e as soluções para ampliar a educação financeira no Brasil.

A evolução da educação financeira no Brasil tem sido lenta, muito lenta, pois nós estamos quebrando paradigmas. Isso porque a educação financeira não se refere a educação de uma pessoa, mas sim da família inteira. Por exemplo, todos os programas que implementei desde 2008 possuem uma parte para as crianças e outra para as famílias, pois elas também precisam mudar seus hábitos financeiros. Outro ponto é que as crianças se guiam pelo modelo, pelo exemplo. Ou seja, se os pais não apagam as luzes ou tomam banhos mais longos, a criança vai copiar os seus exemplos.

Antes da educação financeira ser tratada nas escolas de forma transversal e seguir as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), eu abri, em 2009, a primeira pós-graduação de educação financeira para professores das escolas públicas e privadas, pois muitos deles nunca haviam tido ensinamentos de educação financeira. Com o tempo veio a graduação, o tecnólogo, o mestrado e o doutorado, ou seja, toda a esteira acadêmica. Nós também apresentamos um projeto de lei para regulamentar a atividade do profissional da educação financeira, que está tramitando no Congresso.

Cabe destacar que depois que a educação financeira passou a constar na BNCC em 2020, surgiram uma série de empresas periféricas achando que educação financeira é matemática, números e investimentos. É por isso que no último painel desse CONAPREF, nós vamos discutir ações estruturadas para que a educação financeira possa realmente fincar o seu papel de agente transformadora, pois ela não é ligada à finanças, e sim a humanas, já que ela trata de comportamento, atitude, renúncias e escolhas. Esse é o ponto.

Hoje, o principal gargalo está no multiplicador. Isso porque muitas escolas e professores têm dificuldade em entender que a educação financeira é uma nova disciplina. Entre os quase 2 milhões de professores do ensino fundamental e médio, muitos deles são analfabetos em termos financeiros e possuem problemas de sustentabilidade financeira.

Além da necessidade de reforçar a educação financeira dos nossos professores, os RHs das empresas também precisam ser reforçados, pois muitos deles são reticentes em relação a essa matéria. Por exemplo, eu me nego a fazer palestras sobre educação financeira em empresas, pois esse assunto precisa ser tratado através de um programa que envolva o colaborador e a sua família.

Nunca, jamais. Por exemplo, enquanto as classes C, D e E são mais abertas à educação financeira, as classes A e B são mais fechadas. Nos programas de educação financeira das classes C, D e E, nós ensinamos as pessoas a projetarem seus sonhos, desejos e necessidades para que elas possam blindar seus orçamentos financeiros, e não apenas ganhar, gastar, se sobrar, faz alguma coisa, e se faltar, vai no crédito. Nós conseguimos penetrar mais rápido nessas classes, pois as pessoas precisam de ajuda.

Quando nós vamos para as classes A e B, a situação fica mais complexa. É mais difícil introduzir a educação financeira nessas classes, pois elas entendem que não precisam disso. O problema é que os pais podem estar bem, mas se os filhos não entenderem desse assunto, o patrimônio pode ser derretido.

Nós sempre perguntamos às pessoas por quanto tempo elas conseguiriam manter seus padrões de vida se parassem de receber seus ganhos mensais. Há alguns anos, nós fizemos uma pesquisa, com base nessa pergunta, nas 100 maiores empresas do Brasil, sendo que 90% dos pesquisados disseram que se sustentariam de 3 a 6 meses. Ou seja, essa não é uma questão de ganhar bem ou de ter bons benefícios. Diga-se de passagem, é por isso que muitos grandes executivos, ao saírem de suas empresas, quebram quando abrem uma franquia, pois esse é um negócio completamente diferente.

O primeiro ponto é entender que dinheiro é finito, que educação financeira é necessária e responder a pergunta que eu coloquei na resposta anterior. As pessoas precisam se conscientizar que dívida não é um problema, que poupar não é difícil e que esse processo passa pela uma mudança comportamental de toda a família. Se a pessoa tiver a percepção de que não está sustentável em termos financeiros, é muito provável que se conscientize e busque a educação do comportamento financeiro para ela e, principalmente, para a sua família.

Não há sentido algum. Zero. As bets nunca foram as vilãs dessa história. Elas sempre existiram, assim como o Jogo do Bicho, a Quina, a Mega-Sena e a Loteca. Antes, elas existiam de forma ilícita, mas foram regulamentadas pelo atual governo, que as extinguiu por estarem trazendo problemas de saúde mental, sendo que esses problemas já existiam devido à ausência de sustentabilidade financeira. Ou seja, as bets foram apenas o tiro de misericórdia.

Recentemente, nós fizemos uma pesquisa sobre saúde mental com centenas de psicólogos, que atendiam pacientes que sofriam com transtornos como ansiedade, depressão e estresse. Em 90% dos casos, a causa-raiz era o desequilíbrio financeiro.

Muitos varejistas estão quebrando porque grande parte da população perdeu capacidade de compra. Como muitos dos seus cartões não possuem mais limite, essas pessoas recorrem ao crediário e ao crédito consignado, que pode comprometer até 35% do salário ou do benefício líquido. Há alguns dias eu conversei com o CEO de uma empresa que me disse que 80% dos seus 2 mil funcionários estavam com crédito consignado. Enquanto isso, está tramitando no Congresso o crédito consignado de locação de imóvel, com um limite de 30%, que não precisa de fiador ou de seguro fiança. Quando somamos os limites de 35% do crédito consignado, 30% do consignado de locação de imóvel, 10% do INSS e 6% do vale transporte, isso faz com que uma pessoa que tenha contratado esses dois créditos receba menos de 20% do seu salário. Ou seja, a situação é periclitante.

As bets não são responsáveis pelo endividamento e pela inadimplência no país. Elas possuem uma relação com a saúde mental das pessoas, pois o fato de muitas pessoas apostarem todos os dias agrava o problema, mas não podemos nos esquecer que como muitas dessas pessoas estavam com as suas reservas zeradas, elas partiram para o risco por falta de opção e desespero.