Em 2025, o RS teve queda de 25,7% nas mortes violentas e registrou a maior taxa de suicídio policial do país.Polícia Civil / DivulgaçãoApenas quatro policiais gaúchos foram mortos por criminosos em 2025, enquanto 14 tiraram a própria vida. Os dois números estão na mesma edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta quinta-feira (23), e só um deles tem chance de aparecer em coletiva, nota oficial ou palanque neste ano eleitoral.
Mas antes de estragar a festa, vamos comemorar direito porque a festa é merecida. O Rio Grande do Sul registrou 1.266 mortes violentas intencionais no ano passado, contra 1.704 em 2024. É uma queda de 25,7%, a segunda maior do país. A taxa gaúcha ficou em 11,3 por 100 mil habitantes, a menor de toda a série histórica do estado e a quarta menor do Brasil. Em 2017, essa mesma taxa era 28,1. Não houve um único roubo a instituição financeira no estado inteiro durante o ano. Roubos de veículos caíram 24%. Isso é política pública funcionando, e quem está tocando merece crédito.
Mas há outros dados – positivos – interessantes. Enquanto o Brasil batia o recorde histórico de letalidade policial, com 6.602 mortos e uma em cada seis mortes violentas do país provocada pela própria polícia, o Rio Grande do Sul foi na direção contrária. Passou de 147 mortes por intervenção policial para 76. Cortou quase pela metade em doze meses e ficou com a terceira menor taxa da federação. No RS, a polícia responde por 6% das mortes violentas; na média nacional, por 16%.
Guarde esse par de números, porque ele desmonta com dados, e não com sermão, uma das teses que vai dominar o debate de outubro. O Rio Grande do Sul derrubou um quarto dos seus assassinatos matando metade do que matava no ano anterior. A conta que vai ser vendida no palanque por alguns candidatos, de que mais corpos na operação significam menos corpo na esquina, simplesmente não fecha na planilha do estado que mais teve resultado.
E é exatamente por isso que os quatorze suicídios de policiais são insuportáveis.
Porque o RS provou, no mesmo relatório, que sabe administrar o uso da força letal. Aprendeu a controlar o gatilho apontado para fora. E perdeu quatorze homens e mulheres da ativa para si mesmo. A taxa gaúcha de suicídio policial é de 0,60 por mil policiais em atividade, a mais alta do Brasil, quase o triplo da média nacional de 0,22. O estado tem pouco mais de 5% da população brasileira e concentrou 13% dos suicídios de policiais do país. O anuário registra que o suicídio é hoje a principal causa de morte entre policiais civis e militares no Brasil.
O angustiante é que esse número não vai a lugar nenhum porque não serve a ninguém.
Para quem construiu carreira denunciando a polícia, o policial é sempre o sujeito da violência e nunca o objeto dela. Um agente que adoece dentro da corporação não cabe no roteiro, atrapalha a moldura, exige uma compaixão que o discurso não previu. Para quem construiu carreira defendendo a polícia, existe uma única morte aceitável, que é a do confronto, com herói de um lado e culpado do outro. Suicídio não tem inimigo para acusar, não vira projeto de aumento de pena, não rende homenagem no plenário nem corte de vídeo em campanha. Sobra, então, um número sem dono. E número sem dono, no debate público brasileiro, é número que não existe.
Dinheiro também não serve de desculpa. O Rio Grande do Sul gastou 8,57 bilhões de reais em segurança pública em 2025, um crescimento real de 22% desde 2021. Só a rubrica de policiamento levou 4,13 bilhões. Inteligência cresceu 30% em cinco anos. Em algum lugar dessa planilha existe uma linha chamada “saúde do efetivo”, e é justamente a linha que nunca aparece no telão.
Quando uma secretaria informa que acompanha a saúde mental dos seus servidores, ela normalmente está dizendo que existe um convênio, um telefone e uma cartilha. O que ela não diz é o que acontece com o policial que usa o telefone. Numa carreira em que porte de arma, escala e promoção passam por avaliação de aptidão, procurar ajuda é abrir um processo contra a própria ficha funcional. Enquanto for assim, o convênio existe para constar.
E o padrão se repete em outras páginas do mesmo relatório. O sistema prisional gaúcho fechou 2025 com 53.386 presos, alta de 14,1% em um ano, quase o triplo do crescimento nacional. O déficit de vagas saltou de 7.294 para 12.550. Morreram 300 pessoas sob custódia do estado, com taxa de mortalidade 63% acima da média brasileira. Dessas, 82 aparecem classificadas como de causa desconhecida.
Nas próximas semanas vai ter balanço, gráfico de barra descendo bonito e a palavra histórico repetida com toda a razão. Vai ser tudo verdade. Mas os 14, enquanto isso, seguem na página 53 do anuário, numa linha entre o Rio Grande do Norte e Rondônia.
