Apesar da queda em indicadores de violência, como mortes violentas, latrocínios e roubo de veículos, a percepção da população brasileira sobre a segurança pública diverge dos dados oficiais. O recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta para uma redução em diversos tipos de crimes, contrastando com a sensação de insuportabilidade diante de assaltos e outros atos criminosos, como destacado por observadores. As autoras do artigo, Cecília Olliveira e Maria Isabel Couto, diretoras do Instituto Fogo Cruzado, ressaltam que mesmo a incidência de balas perdidas, um símbolo da violência urbana, também registrou queda.

O debate sobre a responsabilidade pela criminalidade é complexo e muitas vezes politizado. O artigo aborda a percepção de um suposto crescimento da violência em estados governados por um partido específico, mas contrapõe com dados que mostram realidades distintas em diferentes unidades da federação, como o Piauí, que se destaca no enfrentamento à violência. A questão do crime organizado é apresentada como intrinsecamente ligada à geografia brasileira, especialmente no Nordeste, devido à sua localização estratégica para o tráfico internacional de drogas, envolvendo facções com origem em estados governados por outras legendas. A mensagem é clara: a criminalidade não deve ser tratada como responsabilidade exclusiva de governos estaduais, que frequentemente carecem dos recursos necessários.

Para a construção de um pacto nacional eficaz contra o crime, as autoras enfatizam a necessidade de embasamento em dados robustos e pesquisas consolidadas, em vez de se basear unicamente em percepções e narrativas. Elas propõem que a articulação nacional seja o eixo central, com ações concretas que já demonstram resultados. Entre as medidas sugeridas estão a coordenação do governo federal no combate a grupos armados, com a criação de unidades de investigação permanentes que reúnam diferentes forças policiais para desarticular facções e milícias.

Outros pontos cruciais para a efetividade do pacto incluem a transformação do sistema prisional, visto como o berço de grandes facções criminosas, e o aprimoramento contínuo das polícias, que enfrentam um desafio significativo na elucidação de homicídios, gerando uma real sensação de impunidade. Além disso, as cidades desempenham um papel fundamental na garantia da segurança diária dos cidadãos, sendo essencial o alinhamento de recursos com metas claras de redução de roubos de rua. O exemplo de investigações federais no Rio de Janeiro, com determinações para reduzir a letalidade policial, é citado como um caminho a ser seguido em busca de ações concretas e resultados efetivos.