Esse é um importante paradoxo enfrentado pelo Brasil: ao mesmo tempo em que o país se beneficia da alta do barril por ser exportador líquido de petróleo, o próprio choque externo amplia pressões inflacionárias e empurra o governo para novas medidas de compensação fiscal.
Nesta segunda-feira (18), o Ministério da Fazenda estimou um impacto de R$ 6,2 bilhões por mês com as medidas anunciadas para conter a alta dos combustíveis.
Ao mesmo tempo, calculou um ganho potencial de arrecadação de cerca de R$ 8,5 bilhões mensais, impulsionado pela valorização do petróleo.
Nova ameaça de Trump ao Irã volta a estressar cotação do petróleoBrasil está pronto para exportar mais petróleo ao Japão, diz ministroPrévia do PIB aponta expansão de 1,3% no 1º tri; em março IBC-Br recua 0,7% A conta considera aumento de receitas via royalties, dividendos da Petrobras, IRPJ (Imposto de Renda de Pessoa Jurídica), CSLL (Contribuição Sobre Lucro Líquido) e imposto de exportação. Em tese, portanto, o saldo ainda seria positivo para o caixa do governo.
O problema é que essa matemática parece mais confortável no papel do que na prática.
Primeiro porque o aumento das despesas obrigatórias, o elevado comprometimento do orçamento e a trajetória da dívida pública reduzem muito a capacidade de transformar receitas extraordinárias em melhora efetiva da percepção fiscal do país.
Além disso, a conta divulgada pela Fazenda ainda não contempla integralmente algumas das medidas mais relevantes anunciadas pelo governo, como a subvenção da gasolina e a extensão de políticas de contenção do diesel. Ou seja: o custo total pode ser significativamente maior.
Mas talvez o ponto mais delicado esteja do lado da inflação.
Mesmo com os subsídios oferecidos pelo governo, o cenário de preços continua em deterioração. A pesquisa Focus divulgada nesta segunda mostrou que a mediana das projeções para o IPCA neste ano subiu a 4,92%.
Para 2027 - que é o horizonte relevante para a política monetária - a estimativa está em 4%. Ou seja, o impacto não está restrito aos postos de combustíveis. Ele se espalhou pelo frete, pela aviação, pela logística, pela indústria petroquímica, pelos fertilizantes e pelos alimentos.
Isso significa que o governo consegue, no máximo, amortecer parcialmente o choque — não eliminá-lo.
Com isso, fica mais em dúvida o espaço que o Banco Central enfrenta para fazer um ciclo mais consistente de queda da Selic.
Na prática, o petróleo mais caro produz um efeito ambíguo para o Brasil. De um lado, reforça receitas públicas.
De outro, piora o ambiente inflacionário, aumenta a pressão por gastos compensatórios e mantém elevada a incerteza sobre juros e atividade econômica.
O resultado é que o país pode acabar capturando apenas uma parte limitada do benefício típico de um exportador de petróleo em momentos de choque geopolítico.
E essa talvez seja a principal contradição do atual cenário brasileiro: justamente quando surge uma rara oportunidade de reforço fiscal via petróleo, o aumento dos gastos públicos e a necessidade de conter a inflação ameaçam consumir boa parte desse ganho antes mesmo que ele se consolide.
