Desta vez não foi só o Brasil. Na madrugada desta quarta-feira, o governo do presidente americano Donald Trump propôs tarifar em pelo menos 10% as importações de 60 dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, entre eles Canadá, México, União Europeia e Reino Unido, na maior iniciativa do presidente americano para reconstruir sua barreira protecionista.

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O argumento, desta vez, é que esses países não fizeram o suficiente para coibir a prática de trabalho forçado na produção de itens fabricados localmente ou importados por essas economias. No caso do Brasil e de outros países, como Suíça, Japão, Índia e China, a tarifa proposta foi ainda maior, de 12,5%.

Na véspera, o Brasil já tinha sido alvo de outro pedido de taxação, também sob o arcabouço legal da Seção 301 (um artigo da Lei do Comércio dos EUA de 1974), dessa vez referente a práticas desleais de comércio. Neste outro processo, o Escritório de Comércio dos EUA (USTR) solicitou uma taxação de 25% sobre o Brasil.

Mas por que os EUA resolveram ameaçar novamente seus principais parceiros comerciais com taxações elevadas neste momento? O que está em jogo? Podem surgir novas barreiras?

Especialistas acreditam que o ‘timing’ para esta nova leva de taxações não é gratuito. No início de julho, expira o prazo das tarifas aplicadas pelos EUA no escopo da Seção 122.

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Essas tarifas da Seção 122 têm validade de apenas 150 dias, expirando em julho, e foram adotadas logo após o governo americano ter sofrido uma derrota na Suprema Corte. A Justiça considerou ilegal o uso de poderes extraordinários pelo Executivo para impor o tarifaço generalizado do assim proclamado por Trump “Dia da Libertação”, em abril de 2025.

Proibido pela Suprema Corte de usar esses poderes extraordinários (a Ieepa, sigla para International Emergency Economic Power Act), o governo Trump adotou então a estratégia de encontrar brechas na Lei do Comércio para aplicar suas tarifas.

De largada, acionou a Seção 122, que nunca tinha sido usada antes na História Americana e que prevê uma autorização para que presidentes imponham tarifas comerciais sem situações nas quais os EUA enfrentem o que a lei define como “problemas fundamentais de pagamentos internacionais”.

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Os EUA então impuseram uma tarifa única global de 10% sobre todos os seus parceiros comerciais. Mas, pela sua natureza, a Seção 122 é temporária: só tem validade por 150 dias.

Por isso, Trump recorreu também à Seção 301, que permite ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) investigar se parceiros comerciais dos EUA adotam práticas que supostamente prejudicam o comércio internacional americano e determinar se há ou não irregularidades.

Os trâmites da Seção 301 são mais demorados. No caso da investigação específica sobre o Brasil e concluída na segunda-feira, o processo foi aberto em 15 de julho de 2025, logo após Trump aplicar um tarifaço de 40% sobre os produtos brasileiros em meio a críticas sobre a condução da Justiça no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. A apuração teve amplo escopo, investigando do Pix ao comércio popular irregular na 25 de Março.

No caso da investigação cujo resultado foi divulgado na terça-feira, e que abrange 60 países que supostamente não teriam sido eficazes em combater o trabalho forçado usado em produtos fabricados localmente ou importados, o processo foi aberto em março de 2026.

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Ambas as investigações agora entram em fase de alegações finais. Interessados poderão apresentar argumentos por escrito até 6 de julho e o USTR fará uma audiência sobre as medidas propostas em 7 de julho.

Embora não entrem em vigor imediatamente, as tarifas chegam em um momento decisivo para a economia global, com os mercados financeiros já pressionados pela guerra envolvendo o Irã e pelos preços elevados da energia. Isso alimentou novos temores de inflação e, nos Estados Unidos, agravou as preocupações dos eleitores com o custo de vida — um fator que ameaça o Partido Republicano de Trump nas eleições legislativas de meio de mandato de novembro.

Segundo entidades empresariais, as novas tarifas trarão complexidade adicional e aumento de custos.

“A aplicação de uma única estrutura investigativa a 60 economias, incluindo aliados históricos dos Estados Unidos e partes de acordos comerciais bilaterais já existentes, criará uma incerteza significativa de conformidade para empresas que operam em cadeias globais de suprimentos”, afirmou o secretário-geral da Câmara de Comércio Internacional, John Denton, em comunicado divulgado nesta quarta-feira.

Além desses dois processos, os EUA devem divulgar nos próximos dias outra investigação sob a Seção 301, que diz respeito a um excesso de capacidade produtiva que prejudicaria a concorrência de produtos americanos.

Essa investigação não inclui o Brasil. Os países investigados por supostamente terem uma “capacidade excedente estrutural em diversos setores manufatureiros, seja por meio de grandes ou persistentes superávits comerciais ou de capacidade produtiva subutilizada ou ociosa”, são: China, União Europeia, Cingapura, Suíça, Noruega, Indonésia, Malásia, Camboja, Tailândia, Coreia do Sul, Vietnã, Taiwan, Bangladesh, México, Japão e Índia.

Analistas de comércio especulam se eventuais tarifas decorrentes dessa investigação poderão ser cumulativas, sendo aplicadas além das propostas no âmbito da investigação sobre trabalho forçado.

— Os parceiros comerciais ficarão compreensivelmente insatisfeitos com essa decisão — afirmou Deborah Elms, chefe de política comercial da Hinrich Foundation, em Cingapura. — Agora foi aberta uma porta para uma série de novos ajustes tarifários e não tarifários — acrescentou.

O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que o objetivo do governo americano era concluir uma série de investigações comerciais para permitir que Donald Trump implemente rapidamente novas tarifas assim que as medidas atualmente em vigor expirarem.