Brasília (28/05/2026) – O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, João Martins, lançou, na quinta (28), um desafio para que o Sistema CNA/Senar amplie cada vez mais os atendimentos de saúde aos produtores e seus familiares no meio rural em todas as regiões do país.

Martins discursou na abertura do evento que comemorou um ano do Saúde no Campo, programa gratuito do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) voltado para produtores rurais atendidos pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), seus familiares e trabalhadores.

O evento realizado na sede do Sistema CNA/Senar, em Brasília, contou com a participação de especialistas nacionais e internacionais, representantes de instituições públicas e privadas, profissionais que atuam no campo, presidentes de Federações de agricultura e pecuária dos Estados, vice-presidentes da CNA, diretores, superintendentes e coordenadores do Senar para discutir caminhos, desafios e oportunidades para o fortalecimento da saúde rural no Brasil.

Em 12 meses, o Saúde no Campo chegou a mais de 55 mil pessoas no campo, de 25 Estados, 827 municípios e 18,6 mil propriedades, promovendo prevenção, diagnóstico precoce, acompanhamento de condições crônicas e o fortalecimento do vínculo entre famílias rurais e a rede de atenção à saúde.

Metas e o futuro - Ao iniciar seu discurso, João Martins traçou um paralelo da sua trajetória e da situação do setor agropecuário. Lembrou que quando assumiu a presidência da CNA, ele colocou como meta criar uma nova classe média rural no país com o Senar levando tecnologia e Assistência Técnica e Gerencial a 400 mil propriedades no país.

A meta foi superada e hoje são mais de 500 mil propriedades atendidas pela ATeG.

“Quando criamos o programa de Assistência Técnica e Gerencial do Senar, nós vimos que muitos produtores rurais e seus familiares não tinham acesso, não tinham o ‘amparo’, a assistência adequada na área de saúde”.

Martins afirmou que o Sistema CNA/Senar está “dando uma colaboração importante para reduzir os problemas de saúde no meio rural”. “Agora o desafio é ampliar o Saúde no Campo para todos os atendidos pela assistência técnica do Senar”.

Diferença - Também ao discursar na abertura do evento “Saúde Rural em Evidência: desafios, avanços e perspectivas”, o diretor de Saúde e Promoção Social do Senar, Renilson Rehem, afirmou que o programa faz diferença para os produtores e seus familiares.

“A população rural, que é dispersa e está mais distante dos centros urbanos, encontra muito mais barreiras para acessar o sistema de saúde em todos os níveis, desde a informação até a própria assistência.”

Rehem afirmou que, em apenas um ano, o programa já alcançou excelentes números e, por isso, não pode parar. “Nós estamos encontrando um público que precisa muito desse apoio. Por isso, o programa está se consolidando e se desenvolvendo tão rapidamente, porque não é algo em que a gente precise convencer as pessoas. Existe uma necessidade real dessa atenção, desse apoio e dessas informações”.

Resultados concretos - Jurandi Frutuoso, representando o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), destacou a importância do programa “Saúde do Campo”, que amplia o acesso da população rural aos serviços de saúde e fortalece políticas públicas voltadas ao interior do país. Segundo ele, a iniciativa traz resultados concretos para os territórios atendidos.

“Discutir saúde rural é discutir equidade, desenvolvimento humano e sustentabilidade. Levar saúde ao campo exige compreender os territórios, as particularidades de vida e as necessidades específicas da população rural, construindo soluções integradas e adaptadas a essa realidade”, afirmou.

Ouvir demandas - A docente da Universidade de Brasília (UNB), Katarinne Lima Moraes, destacou o papel da enfermagem dentro do programa e a importância da atuação dos estudantes e profissionais de saúde junto às comunidades rurais.

Para ela, a experiência no campo contribui para sensibilizar os futuros profissionais sobre as diferenças culturais e as necessidades específicas da população rural, fortalecendo uma formação mais humanizada e próxima da realidade das pessoas.

“É preciso despertar nos estudantes a sensibilidade de olhar nos olhos do produtor rural, ouvir suas demandas e entender o que ele realmente precisa. O cuidado precisa caminhar com as pessoas, com escuta, atenção e diálogo, porque trabalhamos sempre com pessoas e para pessoas”, afirmou.

Colaboração - O diretor-geral do Einstein Hospital Israelita, Henrique Neves, disse que a saúde no meio rural não pode ser tratada como uma pauta periférica. E que o Saúde no Campo, que acaba de completar um ano, “se configura como um exemplo de que é possível proporcionar cuidado de qualidade para quem vive, trabalha e produz longe dos grandes centros.”

Para fortalecer a atuação do programa, o Senar firmou, em 2025, uma colaboração com o Einstein Hospital Israelita, referência nacional em saúde, visando ampliar o atendimento por meio da telemedicina.

"O Einstein faz parte desse projeto com muito prazer e honra, contribuindo com a plataforma tecnológica integrada ao programa" que, segundo ele, utiliza ferramentas de telemedicina e acompanhamento multiprofissional para fortalecer as ações de saúde destinadas a produtores rurais e seus familiares.

Para Henrique Neves, talvez o ponto mais importante seja que a tecnologia sozinha não resolve desigualdade. “O transformador é a tecnologia colocada a serviço de um propósito. Por isso que vejo tanto valor em iniciativas como esta, liderada pelo Senar, que ajudam a posicionar a saúde rural como um campo legítimo de avanço tecnológico, colaboração e transformação.”

Direitos - Viviana Martinez-Bianchi, presidente da Organização Mundial de Médicos da Família (Wonka), destacou a importância da saúde rural e lembrou que falar sobre o tema é falar de justiça, verdade e do direito das pessoas de viver uma vida saudável e digna, independentemente de onde elas vivem ou trabalham.

"A saúde rural não é, e não pode continuar invisível. Por isso estou tão contente com esse programa, de ver o que vocês estão fazendo aqui. Porque precisamos deixar de pensar que a saúde rural é uma versão menor da saúde urbana. A saúde rural precisa de excelência e exige inovação, liderança e exige ouvir as vozes das comunidades." Para a especialista, quando se fortalece a saúde rural, "fortalecemos países inteiros, famílias, democracias e a esperança."

Impactos em um ano – Representando a da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) no Brasil, Jonás Gonseth-García, parabenizou o Senar pela iniciativa e falou que, em saúde pública, um projeto com apenas um ano de existência já conseguir demonstrar impacto, monitorar alcance e apresentar resultados concretos é realmente impressionante.

“Esse é um desafio que exige modelos de cuidado em que o papel das equipes de atenção primária e dos técnicos de saúde é fundamental para gerar consciência, acompanhar famílias e garantir seguimento. Em apenas um ano, o que vocês construíram é realmente impressionante. Existe aqui uma grande oportunidade de seguir avançando juntos. Parabéns, podem contar conosco".

Desafios – O Saúde no Campo acontece em um contexto em que produtores rurais brasileiros, em muitas regiões do país, encontram dificuldades para acessar os serviços especializados devido a uma série de desafios estruturais e logísticos. São situações que impactam o diagnóstico precoce, a prevenção de doenças e a continuidade do acompanhamento clínico.

Em mais de 96 mil visitas às propriedades rurais pelo país, o Senar ouviu homens e mulheres de várias idades e levantou dados que apontam a realidade da saúde de milhares de pessoas no meio rural. Entre os atendidos pelo programa, por exemplo, 21.163 relataram algum tipo de comorbidade, com destaque para doenças cardiovasculares (39,57%), diabetes (16,56%) e questões relacionadas à saúde mental (12,61%).

Além dos aspectos clínicos, o programa identificou desafios estruturais que impactam diretamente a saúde da população rural, como destinação de lixo, uso de água sem tratamento e condições precárias da rede de esgoto.

Programa – O Saúde no Campo é executado por equipes qualificadas, que realizam visitas às propriedades para identificar condições de saúde, planejar intervenções preventivas e promover o cuidado individual e coletivo, com foco na prevenção de doenças e no diagnóstico precoce.

Os estados participantes contam com módulos compostos por um supervisor (enfermeiro) e 15 técnicos de saúde rural (técnicos de enfermagem ou enfermeiros). Cada módulo é responsável por atender até 2.250 pessoas em 450 propriedades rurais. Atualmente são mais de 720 técnicos atuando no campo.

Além das visitas, os participantes recebem materiais educativos, com orientações práticas sobre doenças prevalentes no meio rural; um caderno de saúde individualizado para registro de informações e orientações; e um kit de primeiros socorros, contendo curativos, ataduras, antisséptico em spray, entre outros itens.

Os técnicos de saúde rural ainda apoiam os usuários no acesso à teleconsulta, contribuem para a inclusão digital em saúde e atuam a articulação com a rede local de saúde.

O Saúde no Campo mantém articulação com as redes municipais para assegurar a continuidade do cuidado, integração das informações e melhor aproveitamento dos recursos locais.

Para mais informações sobre o programa Saúde no Campo, acesse: https://www.cnabrasil.org.br/programa-saude-no-campo