O ministro Salomão, futuro presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), manifestou preocupação com o que chamou de "judicialização da vida social e política" no Brasil. A declaração foi feita durante uma sabatina no Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo. Salomão, que assume o comando do STJ em 19 de agosto, traçou um paralelo entre o desenho institucional brasileiro e o de outros países, destacando que a Constituição de 1988 atribuiu ao Judiciário um papel central na garantia de direitos fundamentais, econômicos e sociais.

Segundo o ministro, essa configuração constitucional, que surge de um período autoritário, fez com que o Poder Judiciário se tornasse o principal garantidor das promessas constitucionais. Essa ampliação do escopo de atuação do Judiciário resultou em uma migração expressiva de disputas para o sistema judicial, que antes eram solucionadas por outras vias, como negociações políticas ou sociais. O "constituinte" optou por delegar ao Judiciário a responsabilidade de resolver uma gama cada vez maior de conflitos.

Salomão apresentou dados alarmantes para ilustrar a dimensão do problema. O sistema judicial brasileiro lida com um volume colossal de processos, estimado em cerca de 80 milhões em tramitação, e enfrenta a entrada de aproximadamente 40 milhões de novas ações anualmente. O ministro ressaltou que essa sobrecarga "não é normal" e exemplificou a situação com uma hipérbole sobre a rapidez com que ações judiciais podem surgir na vida cotidiana.

Diante desse cenário, o presidente eleito do STJ identificou a demora na prestação jurisdicional como o "maior problema" atual do Judiciário. Ele enfatizou a necessidade de que o debate público e as ações institucionais se voltem para a melhoria da eficiência do sistema de Justiça, buscando otimizar o funcionamento das cortes e, consequentemente, reduzir a lentidão na resolução dos processos. A busca por um Judiciário mais ágil e efetivo é, portanto, um dos focos de sua futura gestão.