Os problemas relacionados à saúde mental no Brasil afetam milhões de brasileiros que buscam por atendimento em serviços públicos ou privados — em sua maioria, incapazes de responder à demanda — e tiram milhares de trabalhadores do mercado. Colaboram para o adoecimento psíquico da população o estado de alerta constante, as fragilidades sociais e os ambientes de trabalho estressantes e ameaçadores. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo: 9,3% da população.

Na visão do psiquiatra Arthur H. Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida (Promev) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a deterioração da saúde mental dos brasileiros se justifica por dois ângulos: “Há uma combinação de piora estrutural das condições de vida e trabalho com maior reconhecimento social, clínico e institucional dos transtornos mentais”.

O estado de alerta quase permanente, fruto do excesso de informação e da hiperconectividade, ocupa papel relevante no adoecimento psíquico, na visão do especialista. “Comparação social constante, precarização de vínculos, insegurança financeira, medo de perder relevância profissional e diminuição dos espaços reais de descanso. Isso cria uma sobrecarga sobre sistemas biológicos que não foram desenhados para viver continuamente sob ameaça, cobrança e exposição.”

O estudioso lembra que, embora tecnicamente não seja uma epidemia, que se espalha por contágio, há algo de “epidêmico” no sentido social: “Há um conjunto de condições ambientais, culturais e econômicas que aumenta simultaneamente a vulnerabilidade de grupos populacionais. Podemos atribuir esse fenômeno a vários fatores sobrepostos”. Soma-se a isso o peso do ambiente de trabalho. “Quando ele se torna fonte contínua de ameaça, humilhação, excesso de cobrança ou perda de autonomia, deixa de ser apenas um espaço produtivo e passa a ser um determinante de adoecimento.”

Dados do Ministério da Previdência Social revelam um aumento exponencial na concessão de benefício por incapacidade temporária ligado à saúde mental (CID-10). No ano passado, foram concedidos 546.254 benefícios temporários por transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,65% sobre 2024, ano que havia registrado um aumento de 66,67% sobre 2023. Os dados se referem apenas a quem se ausentou do trabalho por mais de 15 dias e passou à tutela da previdência social.

“Os números são alarmantes, mas não é um fenômeno puramente brasileiro. A OMS estipula que a partir de 2030 os transtornos mentais serão a principal causa de afastamento do trabalho”, informa Alaor Carlos de Oliveira Neto, head do serviço de psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HAOC). “O caso brasileiro tem peculiaridades, é fruto da condição de vida ruim, custo de vida alto e políticas públicas de saúde empobrecidas. O trabalhador consome horas em deslocamentos, não tem autonomia para trabalhar, sem falar na insegurança financeira. Vive em um estresse grande”. Para ele, a reforma psiquiátrica (Lei n° 10.216/2001) era desejada, mas deixou um vazio. “A implementação foi completamente deturpada. O fechamento de leitos não foi substituído por serviços públicos que atendam à demanda. O Caps [Centro de Atenção Psicossocial] não tem condição de absorver tamanha demanda.”

Oliveira Neto destaca que o acesso a psicólogos e psiquiatras fica aquém do necessário mesmo via planos de saúde: “Saúde mental envolve a vida do indivíduo, seu ambiente e, com limite de tempo, nem sempre é possível uma avaliação de qualidade. Os planos de saúde limitam demais esse acesso, quantidade e qualidade”.

Danila, do Promev/USP, reforça a percepção de dificuldade de acesso a diagnóstico e tratamento. “O modelo conceitual (saúde pública) é muito potente, especialmente quando funciona de forma territorial, multiprofissional e integrada. O problema é a distância entre o desenho ideal e a realidade operacional em muitos locais. Há filas longas, escassez de profissionais, desigualdade regional, dificuldade de acesso à psicoterapia continuada, fragmentação entre níveis de cuidado e sobrecarga dos serviços especializados”, afirma.

Dados mais recentes do Mapa Assistencial da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) revelam que o volume de consultas em psiquiatria e psicologia passou de 26,5 milhões em 2019 para 71,5 milhões em 2024, expansão de aproximadamente 170%. “Diante desse cenário, as operadoras vêm ampliando programas de cuidado integral, atenção primária, acompanhamento multidisciplinar, telemedicina e ações preventivas, sempre com foco em segurança clínica, qualidade assistencial, eficiência e sustentabilidade do sistema”, comenta Cássio Ide Alves, diretor técnico-médico da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), reconhecendo que há uma assimetria regional importante. “As operadoras de planos de saúde, incluindo as pequenas e médias empresas com forte presença no interior do país, têm desempenhado papel essencial na ampliação da assistência. As operadoras reconhecem o crescimento da procura por atendimentos relacionados à saúde mental e investem em telemedicina, cuidado coordenado e fortalecimento das redes assistenciais.”

Embora Danila, do Promev/USP, reconheça avanços na saúde suplementar, destaca que a cobertura formal para consultas em saúde mental não significa acesso adequado: “Na prática, ainda há desafios como redes credenciadas insuficientes, baixa remuneração, dificuldade de agendamento, alta rotatividade e pouca integração entre psicoterapia e psiquiatria.”

Para Oliveira Neto, do HAOC, como o trabalho tem papel relevante no adoecimento das pessoas, é necessário mudanças que garantam um “cuidado organizacional e institucional” do colaborador, como cita a norma NR-1, cujo prazo final para adequação das companhias terminou em 26 de maio. Todas as empresas passam a ter que incluir no mapa de riscos fatores psicossociais como estresse, assédio e sobrecarga no trabalho. “É importante o engajamento das empresas, identificando os riscos e buscando controlá-los. No hospital, é um trabalho que já é feito e tem dado resultado”, comenta. A instituição, que se antecipou à NR-1, informa que reduziu em 15% os casos de transtornos mentais e em 16% os dias perdidos por afastamento de colaboradores ligados à saúde mental em 2025. Entre as iniciativas, foi criado o Código Verde, protocolo que estabelece um fluxo imediato de suporte e acolhimento psicológico para profissionais expostos a eventos críticos ou de alta carga emocional em áreas como pronto-socorro e UTI.

Pesquisa da Mercer Marsh Benefícios revela que apenas 37%, de um universo de 208 empresas avaliadas, monitoram casos de burnout. Os gatilhos para a piora mental, apontados na pesquisa, são excesso de demanda (42%), liderança (39%) e falta de autonomia no trabalho (13%). “O estresse financeiro piora o quadro, o endividamento das famílias está alto. Isso, somado a ambientes muitas vezes sem uma cultura organizacional saudável, leva à piora na saúde mental”, comenta o presidente da Mercer Brasil, Eduardo Marchiori. “Por outro lado, ambientes com cultura saudável têm 50% a menos de turnover voluntário. Programas bem estruturados de bem-estar e saúde mental geram de duas a quatro vezes retorno sobre o investimento.” Marchiori ressalta o papel da liderança para mudar este quadro. “A liderança define a cultura, faz a alocação de recursos, defende os valores. Em especial, os mais jovens esperam da liderança duas coisas importantes: cultura alinhada aos valores atuais e uma liderança que se manifeste, se posicione.”

Para Luiz Bezerra, consultor sênior da Mercer Marsh Benefícios, a NR-1 será mais uma ferramenta para identificar, avaliar e controlar as condições no ambiente. “Saúde, segurança e RH estão andando de mãos dadas agora mais que nunca. É superinteressante ver essa evolução. Eu acredito que o risco psicossocial sendo avaliado é um cenário muito promissor para a saúde coletiva, para os trabalhadores e para as empresas também.”