Para ilustrar a complexidade do cenário, Niemeyer destacou três categorias de produtos que o Brasil exporta para os Estados Unidos. O primeiro exemplo é o dianteiro do boi, um produto primário utilizado na fabricação de hambúrgueres no mercado norte-americano. Segundo ele, uma redução nessa importação elevaria diretamente o preço do hambúrguer, impactando o consumo cotidiano dos americanos.
Análise: Taxação em 25% dos EUA pode afetar madeiras e máquinas brasileirasPor Lucinda Pinto: Pressão com tarifas é o que preocupa o BrasilAnálise: Trump defende interesses dos EUA às custas de tarifas externas O segundo exemplo são os óleos combustíveis, classificados como fatores de produção, que entram em cadeias industriais dentro dos Estados Unidos. Já o terceiro é o avião da Embraer, um produto altamente industrializado.
Na avaliação de Niemeyer, o foco das tarifas deve se concentrar nos produtos intermediários e industriais, como máquinas, equipamentos, óleos combustíveis e produtos metalúrgicos. "Eu tenho a impressão que o presidente Trump vai focar mais neste tipo como o óleo combustível, máquinas, equipamentos, produtos metalúrgicos, porque ele quer favorecer as indústrias que produzem esses fatores de produção lá nos Estados Unidos", afirmou.
Já os produtos primários, como o dianteiro do boi, devem ser menos taxados por impactarem diretamente a inflação e a rotina alimentar dos norte-americanos. Os aviões da Embraer, por sua vez, também não seriam o alvo principal das medidas.
Niemeyer ressaltou que a estratégia de Trump está fortemente ligada a uma agenda eleitoral voltada para os trabalhadores dos setores primário e secundário da economia, que compõem parte relevante do eleitorado que o apoia. "É uma preocupação de Trump com os funcionários das empresas desses setores que vão votar ou não nele", explicou, acrescentando que as eleições de novembro, que definirão a composição da Câmara e do Senado norte-americanos, também influenciam essas decisões.
Questionado sobre a capacidade do Brasil de substituir o mercado americano, Niemeyer lembrou que, durante o primeiro tarifaço, o país conseguiu ampliar rapidamente suas exportações para países como Singapura, Malásia, Filipinas, Índia e China.
No entanto, ele alertou que essa substituição é mais viável para produtos primários do que para bens industriais. "É mais difícil você achar um mercado que compre máquinas e equipamentos da indústria metalúrgica brasileira do que o mercado que compre, por exemplo, café ou dianteiro do boi do Brasil", pontuou.
Além das tarifas, Niemeyer identificou três agendas centrais que orientam as ações do governo americano: a segurança internacional, a recuperação da economia doméstica e o combate à imigração ilegal. Segundo ele, esta última está relacionada à questão do crime organizado em países como o Brasil. "Esses países acabam exportando, entre aspas, pessoas e pede-se o controle na entrada destes imigrantes", disse.
Para Niemeyer, Trump não privilegia uma agenda em detrimento das outras de forma permanente. "Eu acho que ele raciocina por semana e não necessariamente privilegia uma agenda com relação à outra", concluiu, reforçando a importância de acompanhar os desdobramentos da audiência de segunda-feira.
