Uma análise de economistas do Insper aponta uma queda surpreendente e preocupante no desempenho das escolas de ensino médio em tempo integral, avaliado pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Consideradas por especialistas e gestores públicos como a principal estratégia para elevar a qualidade da educação no Brasil, essas instituições, que oferecem pelo menos 35 horas semanais de aula, viram seu desempenho cair entre 2019 e 2023. Neste período, o Ideb dessas escolas regrediu de 4,51 para 4,44 pontos, uma diminuição de 0,07 ponto.

Em contraste com a tendência das escolas em tempo integral, o Ideb de todas as escolas de ensino médio apresentou crescimento no mesmo período. Dados compilados pelos economistas Ricardo Paes de Barros e Laura Müller Machado indicam que escolas sem a oferta de período integral tiveram uma melhora em seu desempenho, passando de 4,12 para 4,21 pontos. Essa divergência resultou em uma redução de 40% na diferença entre o desempenho de alunos de escolas em tempo integral e os de período parcial, um cenário inesperado que levanta sérias questões.

O ensino em tempo integral tem sido visto como a "bala de prata" para a educação brasileira, com uma expansão significativa de matrículas nos últimos anos. De 2019 a 2025, a proporção de alunos do ensino médio matriculados em período integral saltou de 11% para 25% em todo o país, com alguns estados apresentando taxas ainda mais elevadas. Investir nesse modelo é reconhecidamente mais caro, exigindo o dobro de recursos por aluno, mas considerado viável diante da queda demográfica e do aumento geral dos gastos com educação.

Diante da queda na vantagem educacional, hipóteses sobre as causas estão sendo investigadas. Uma delas sugere um possível "relaxamento" na perseguição de elementos cruciais para o sucesso do modelo, como a qualidade dos professores, a dedicação exclusiva e a atenção aos atributos socioemocionais dos alunos. Outra possibilidade é que a pandemia de Covid-19 tenha impactado de forma mais severa as escolas de tempo integral. Os pesquisadores aguardam os resultados do Ideb de 2025, com divulgação prevista para o próximo mês, na esperança de que tragam uma reversão ou ao menos uma desaceleração na queda observada.