Em busca de protagonismo em uma agenda que ganha espaço no debate internacional, o Estado do Rio passa a contar com duas ferramentas para orientar a expansão da chamada economia azul. O conceito se refere ao uso sustentável dos recursos oceânicos, fluviais e costeiros para impulsionar o crescimento econômico, gerar emprego e renda e, ao mesmo tempo, preservar a saúde dos ecossistemas aquáticos.

Uma delas é o Painel da Economia Azul, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que traz um diagnóstico das atividades ligadas ao setor. A outra é a plataforma Guanabara Azul, criada pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para monitorar, em tempo real, as condições ambientais, meteorológicas e socioeconômicas da Baía de Guanabara.

A chamada economia azul movimenta cerca de US$ 1,5 trilhão por ano no mundo, o equivalente a aproximadamente 2,5% do PIB global, segundo as Nações Unidas. A expectativa é que esse mercado dobre de tamanho até 2030, com potencial para gerar cerca de 40 milhões de empregos.

No Estado do Rio, essa agenda encontra condições favoráveis para avançar: são 636 quilômetros de litoral, onde vivem cerca de 80% da população fluminense, além de uma economia fortemente ligada ao mar, com atividades como portos, petróleo e gás, turismo, pesca e construção naval. Em 2027, a realização da Conferência da Década do Oceano da ONU deve ampliar a visibilidade desse potencial e estimular iniciativas voltadas à gestão sustentável da zona costeira.

O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Regional e Desenvolvimento da UFRRJ, Joilson Cabral, explica que o Painel da Economia Azul é pioneiro no país por reunir um diagnóstico socioeconômico da economia azul fluminense com dados de 2008 a 2024. O levantamento organiza 101 atividades econômicas em oito setores e busca mostrar o potencial da área.

“A economia azul pode ser um vetor de desenvolvimento econômico para o Estado do Rio de Janeiro, gerando emprego, renda, aumentando arrecadação”, resumiu. Segundo Cabral, a economia azul registra participação de 15,15% no PIB estadual e faturamento estimado em R$ 384,2 bilhões, o equivalente a 13,5% do faturamento estadual de 2025. A estimativa atual é de cerca de 400 mil empregos formais e diretos ligados à economia azul.

Segundo o pesquisador, o painel pretende dar visibilidade a uma cadeia que vai muito além da imagem turística do litoral fluminense. “Atividades ligadas a petróleo e gás, indústria naval, logística, transporte aquaviário, serviços de utilidade pública e turismo entram no conceito, desde que associadas ao uso sustentável dos recursos. A intenção é oferecer uma ferramenta para gestores, pesquisadores e setor produtivo acompanharem a dinâmica econômica do mar e das águas interiores com mais precisão", diz.

Já a plataforma Guanabara Azul parte de outra frente: observar a baía em tempo real e transformar informação em antecipação de riscos e decisão para políticas públicas. Luiz Landau, coordenador-adjunto da COPPE/UFRJ e responsável pelo sistema, conta que a iniciativa nasceu de trabalhos anteriores de modelagem e monitoramento e foi ganhando forma até se tornar uma plataforma integrada, que conecta sensores, radares, estações meteorológicas e outros equipamentos para coletar e transmitir dados em tempo real.

“O sistema funciona como um gêmeo digital da Baía de Guanabara, capaz de reproduzir virtualmente as condições reais do ambiente e ajudar a prever correntes, ventos, ondas, frentes frias e situações de risco. Além disso, reúne informações socioeconômicas e ambientais que podem apoiar tanto a gestão pública quanto o planejamento territorial", explica.

Segundo o pesquisador, a plataforma também deve ser útil em episódios de emergência, como derramamentos de óleo e eventos climáticos extremos. Com os dados em tempo real, será possível antecipar impactos e indicar trajetos de dispersão, além de apoiar decisões sobre navegação, operações portuárias, defesa civil e prevenção de riscos à população do entorno. A ferramenta deve funcionar com diferentes níveis de acesso, do público em geral a camadas mais restritas para a gestão, e a expectativa é que o modelo possa ser replicado para outras áreas da costa fluminense.

Na avaliação da subsecretária de Sustentabilidade e Educação Ambiental da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS), Ana Asti, as duas iniciativas se completam e estão diretamente ligadas ao esforço de recuperação da baía. “Sem qualidade ambiental, a economia azul perde força. Sem monitoramento, a recuperação da baía fica mais lenta e menos precisa.”

Ana relaciona o novo momento à expansão do saneamento e à retomada de serviços que estavam precarizados. Segundo ela, o estado trabalha para alcançar 90% de cobertura de saneamento na região metropolitana até 2033 e, com isso, devolver à população um ecossistema mais saudável, com praias balneáveis, retorno da fauna e maior potencial de uso econômico da costa.

As plataformas serão lançadas durante o Green Rio Tech Blue Economy Rio 2026, nos dias 29 e 30 de outubro, na Marina da Glória. Para a CEO do Green Rio Tech, Maria Beatriz Bley Martins Costa, o evento, que chega à 14ª edição, se consolida como um espaço de articulação para esse tipo de agenda.

“O Green Rio está se firmando como uma plataforma de encontros e sinergias regionais e internacionais”, conta.

O evento engloba inovação e debates voltados à bioeconomia, economia azul e sustentabilidade.