Renan Aleluia de Souza, fundador da Aleso & Company, apresentou uma análise aprofundada sobre as disparidades entre os mercados de saúde do Brasil e dos Estados Unidos, destacando diferenças cruciais em escala, estrutura e dinamismo de inovação. Segundo o especialista, apesar de os Estados Unidos possuírem aproximadamente o dobro de médicos e leitos hospitalares em comparação ao Brasil, o mercado americano de saúde movimenta cerca de 24 vezes mais recursos financeiros.
Essa assimetria se reflete em ciclos financeiros contrastantes. No Brasil, os meses de abril e maio de 2026 foram marcados por agressivas reestruturações entre grandes consolidadoras hospitalares. Empresas como a Kora Saúde, controlada pelo fundo americano H.I.G. Capital, obtiveram aprovação para renegociar cerca de R$ 1,3 bilhão em dívidas. Oncoclínicas e Alliança Saúde também iniciaram processos similares. Este cenário é uma consequência de um ciclo intenso de fusões e aquisições (M&A) entre 2020 e 2022, que tornou a dívida insustentável com a taxa Selic elevada.
Em contrapartida, os Estados Unidos observam um movimento oposto no setor de saúde. Mesmo diante de recentes cortes de financiamento por parte do Medicaid e Medicare, o private equity em saúde registrou um volume recorde de US$ 191 bilhões em transações divulgadas em 2025, superando o pico de 2021. O segmento tem sido palco das maiores transações de take-private da década, como as aquisições da Hologic e da Walgreens, demonstrando um forte apetite por investimentos.
A natureza da inovação é outro ponto de divergência estrutural. Nos EUA, grande parte da inovação em saúde ocorre fora dos hospitais, com o florescimento de healthtechs, plataformas digitais e novos modelos de cuidado descentralizados, impulsionados pelo alto custo e imprevisibilidade do sistema. No Brasil, o modelo ainda é predominantemente concentrado em hospitais e na relação médico-paciente, o que, segundo Aleluia, pode influenciar a velocidade de desenvolvimento de novas soluções e explicar os limites encontrados pela tese de consolidação hospitalar diante do custo do capital.
