O Brasil se encontra em um momento crucial de discussão para a reformulação da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), com a publicação da nova versão prevista para o final deste ano. O cenário atual é marcado por uma intensa sobrecarga das equipes de saúde, a escassez crônica de medicamentos e insumos básicos, e uma integração ainda insuficiente com outras esferas do Sistema Único de Saúde (SUS). Essas questões foram amplamente debatidas durante o congresso da regional Sudeste da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), realizado no Rio de Janeiro.

Relatos de profissionais durante o evento evidenciaram a gravidade da situação. Muitas equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) estão responsáveis por até 5.000 pessoas, um número que ultrapassa em mais do dobro o parâmetro ideal defendido pela SBMFC para assegurar um acompanhamento de qualidade. A falta de medicamentos básicos, como a insulina NPH, levou a casos graves de descompensação de pacientes, que necessitaram de internação hospitalar e, mesmo após estabilizados, continuam sem acesso à medicação essencial, com falta de previsão de reposição nas unidades básicas de saúde (UBS).

Diante desse quadro, médicos relatam a necessidade de "improvisar" e atuar com base no "que tem", uma realidade que vai além da falta pontual de um item. Em alguns casos, profissionais chegam a usar recursos próprios para adquirir insumos básicos que deveriam ser fornecidos pelo posto de saúde, como clorexidina, termômetros ou oxímetros. Essa escassez abrange não apenas medicamentos, mas também profissionais e a capacidade de gestão das equipes, que se veem sobrecarregadas e com a responsabilidade continuada e profunda com os pacientes e suas famílias.

A reformulação da PNAB é considerada urgente pela comunidade médica, pois o perfil dos pacientes e das doenças atendidas pela atenção primária mudou significativamente nas últimas décadas, com um aumento expressivo de demandas relacionadas à saúde mental e violência, por exemplo. A política atual não acompanhou essas transformações. Especialistas defendem o resgate da lógica original da ESF, com ênfase no vínculo longitudinal com as famílias, a abordagem comunitária e o combate à precarização dos vínculos de trabalho. A SBMFC também reivindica o redimensionamento do número de pessoas por equipe e um financiamento diferenciado para a atenção primária, buscando garantir carreiras e vínculos protegidos que impactem positivamente na redução de internações evitáveis.