Especialistas analisam a expansão do crime organizado, as desigualdades e os desafios das políticas de enfrentamento à criminalidade

A violência social no Brasil está relacionada às desigualdades, à expansão do crime organizado e aos desafios históricos das políticas de segurança pública. Essa é uma das questões discutidas pelo jornalista, escritor e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), Bruno Paes Manso, durante o USP Pensa Brasil 2026, evento que, neste ano, tem como tema Crise da democracia e violência social.

Em entrevista sobre o debate Segurança Pública e violência social, o pesquisador destacou que a criminalidade brasileira passou por transformações ao longo das últimas décadas. O crescimento das cidades, a partir dos anos 1970 e 1980, contribuiu para tornar a segurança pública uma preocupação central. Desde então, crimes como roubos, furtos e homicídios passaram a conviver com novas modalidades de violência, como os golpes financeiros virtuais e a expansão das organizações criminosas.

Bruno explica que os roubos e furtos de celulares estão entre os crimes que mais afetam a população brasileira. O aparelho concentra grande parte da vida das pessoas, desde contas bancárias e aplicativos de compras até arquivos pessoais. Além disso, o pesquisador destaca que os crimes de estelionato e os golpes virtuais têm crescido nos últimos anos, acompanhando o avanço da tecnologia.

O pesquisador também chamou a atenção para a atuação de facções e milícias em territórios periféricos. Nesses locais, grupos criminosos utilizam o domínio armado para controlar áreas e obter recursos financeiros.

A violência policial é outro aspecto abordado na entrevista. De acordo com Bruno, esse tipo de violência atinge especialmente jovens negros e pobres que vivem nas periferias e pode contribuir para o fortalecimento das milícias quando há tolerância ou falta de controle sobre a atuação policial.

De acordo com o artigo 144 da Constituição Federal de 1988, a segurança pública é dever do Estado e responsabilidade de todos, sendo exercida por diferentes órgãos. Para o pesquisador, o enfrentamento dos problemas relacionados à criminalidade exige uma atuação articulada entre os diferentes níveis de governo.

Na entrevista, o pesquisador também mencionou iniciativas de combate às organizações criminosas, como operações voltadas à apreensão de recursos financeiros e à identificação de integrantes estratégicos das facções. Para ele, compreender o funcionamento econômico do crime pode contribuir para enfrentar sua estrutura, em vez de concentrar as ações apenas no encarceramento de pessoas com menor participação nas organizações.

Ao concluir, Bruno criticou discursos que apresentam o aumento da violência policial, das penas ou das prisões como soluções simples para a criminalidade. Segundo ele, o populismo na segurança pública se fortalece com o medo da população e pode desviar a atenção de políticas públicas capazes de enfrentar as causas e a complexidade da violência social.

O debate Segurança Pública e violência social encerra a programação desta quarta-feira (16) do USP Pensa Brasil 2026, no Auditório István Jancsó, do Espaço Brasiliana. Além de Bruno Paes Manso, o encontro terá a participação do professor Leandro Piquet Carneiro, do Instituto de Relações Internacionais (IRI), e será mediado pela professora Maria Paula Dallari Bucci, da Faculdade de Direito da USP.

Ao longo do dia, o evento também promove apresentações de pesquisas sobre instituições, justiça social, violência de gênero, precarização do trabalho e autoritarismo, além da mesa Quem confia na democracia? Desigualdade, violência e percepções sobre as instituições, realizada pelo Instituto de Estudos Avançados da USP.

A programação segue até sexta-feira (18), com discussões sobre os desafios da democracia brasileira e o papel das instituições na sociedade.

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