Em 2018, ex-presidente Temer decretou intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. No imaginário da opinião pública, esse evento nacionalizou o tema que era local para uma discussão sobre o papel do governo federal na segurança do cotidiano. Em 2026, dados das pesquisas Meio/Ideia contam uma história consistente: a segurança é uma das piores áreas na avaliação do governo Lula. Talvez essa seja a fragilidade mais sólida do terceiro mandato. Essa condição específica pode custar a reeleição?

Seria a primeira eleição em que segurança pública teria protagonismo para eleger um presidente. O PT venceu suas eleições nacionais se apresentando como o bastião das políticas econômicas e sociais para os mais pobres. Os tucanos tiveram êxito em duas como maiores combatentes da inflação. Fernando Collor, em 1989, e o Jair Bolsonaro, em 2018, foram eleitos na esteira do combate à corrupção. Em 2018, o bolsonarismo nacionalizou o lema de “bandido bom é bandido morto”, mas não foi essa a razão da vitória.

No contexto atual, o petismo segue sem uma resposta plena para a ansiedade de segurança da sociedade. O governo apostou em medidas pontuais, como o Celular Seguro ou na venda de esperança de melhora futura como a PEC da Segurança Pública e o programa Brasil contra o Crime Organizado. Todavia, para a maioria dos eleitores, a real aposta da esquerda no poder segue sendo a segurança como consequência de política social: mais emprego, mais renda, menos violência no longo prazo. Uma leitura respeitável, mas que não responde à urgência percebida por quem convive com crime organizado dominando territórios e com os medos rotineiros.

Do lado da oposição, o “modelo Bukele” de El Salvador é a metáfora moderna do discurso de “bandido bom é bandido morto” transformado em política pública. Nayib Bukele reduziu drasticamente os índices de homicídio a partir de um Estado de exceção permanente, prisões em massa e construção de um megaprisão que virou vitrine. O modelo inspira discursos dos presidenciáveis oposicionistas.

Porém, essa abordagem carrega um custo que a maioria da opinião pública brasileira, historicamente, tende a rejeitar quando confrontada com os detalhes de prisões sem ordem judicial, mortes sob custódia e suspensão permanente de garantias constitucionais. Algo que replicado como tal esbarra na tradição institucional e no apego brasileiro ao devido processo, mesmo entre os que mais desejam a mão mais dura contra o crime. A rejeição é ainda mais forte entre as mulheres, que mais sofrem e repelem soluções radicais para enfrentar a violência.

Por esses motivos, nenhum dos dois lados converte sua narrativa em vantagem eleitoral estável. E principalmente entre grupo de independentes que será decisivo. A opinião pública pune a omissão, mas não compra de olho fechado a solução de “bandido bom é bandido morto”. A maioria quer resultado verificável: menos roubo, menos tiroteio, menos violência doméstica e mais presença de um Estado que proteja, sem renunciar ao arcabouço legal, ainda que imperfeito e desigual.

Esse é um vácuo da política atual: não existe, em nenhum dos campos políticos, uma proposta de segurança que combine eficácia mensurável com legitimidade institucional.

Os especialistas nessa área são unânimes em apontar que a solução real passa pelo engajamento de todas as áreas do Estado: federal, estadual, municipal, Legislativo e Judiciário. Esse é um tema de todos e merece um debate que pelo menos flerte com esse caminho. Infelizmente os indícios apontam que não teremos isso na campanha nacional. Seguiremos com a segurança pública não elegendo presidente e nem o presidente elegendo, de verdade, a segurança.