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23.mar.2026 às 10h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Ouvir o texto Raquel Lopes Brasília Autoridades de segurança pública brasileiras têm conseguido estabelecer conexões entre crimes graças a um sistema que permite identificar quando uma mesma arma foi usada em diferentes casos.

Com o emprego do Sinab (Sistema Nacional de Análise Balística), peritos conseguem comparar marcas deixadas por disparos em projéteis e estojos recolhidos em cenas de crime e apontar se tiros feitos em locais e momentos distintos partiram do mesmo equipamento.

Ao ajudar a conectar casos antes aparentemente isolados, o Sinab é apontado como importante ferramenta na resolução de crimes contra a vida e no enfrentamento ao crime organizado.

Desde 2022, o país já inseriu 118.058 vestígios de projéteis e estojos no banco nacional. Em 2025 foram 43.555 registros, ante 34.506 em 2024. A partir desse material, o sistema já gerou 7.980 matches —ou seja, quando há confirmação que o vestígio cadastrado no Sinab pertence a uma arma que já foi usada em outro crime.

Apesar do avanço, a operação ainda enfrenta gargalos nos estados, que alegam sobretudo a falta de peritos, o número reduzido de laboratórios e as dificuldades para enviar vestígios do interior aos centros de perícia. Além disso, quando a integração não é possível, alguns estados acabam priorizando bancos próprios de dados em detrimento do nacional.

A conexão entre crimes é realizada por meio de um processo que combina o escaneamento digital de vestígios deixados em projéteis ou estojos e a validação técnica de peritos.

"O banco de perfis balísticos tem se tornado o cérebro das investigações que envolvem armas de fogo no país", disse Thiago Rosa Sampaio, coordenador do Comitê Gestor do Sinab da Polícia Federal.

De acordo com ele, o sistema registra uma média mensal de 300 a 400 hits (uma suspeita de ligação, mas que ainda não virou match por não ter passado por análise humana) entre crimes que anteriormente poderiam parecer desconectados.

A PF detém a coordenação nacional e a estrutura de governança dos bancos. Na prática, atua como a administradora do sistema, o que lhe confere o poder de visualizar as ligações e os casos de todas as unidades da federação, além de ter um laboratório que realiza a inserção e análise dos vestígios relacionados aos crimes federais. Já o Ministério da Justiça financia a aquisição e o suporte dos equipamentos.

Isabel Figueiredo, diretora do Sistema Único de Segurança Pública da pasta, afirma que a base de dados é alimentada principalmente com vestígios ligados a crimes contra a vida, ação do crime organizado no domínio de cidades, roubo de carga e delitos de competência da Polícia Federal.

"Se o sistema fosse alimentado com qualquer ocorrência, o banco ficaria poluído, o que tornaria o método de correlação de dados excessivamente complexos e difícil de gerir. O objetivo central do Sinab é funcionar como uma ferramenta de inteligência, capaz de identificar se uma mesma arma foi utilizada em diferentes crimes graves", disse.

Embora todos os estados já operem o sistema, eles se encontram em estágios diferentes de uso. Há unidades da federação com mais de 1.000 matches registrados, enquanto outras ainda não identificaram nenhuma conexão.

Um dos destaques é o Rio Grande do Norte, que lidera no número de matches. A partir das análises, foi possível identificar que 18 ocorrências distintas no estado e na vizinha Paraíba estavam ligadas ao uso do mesmo armamento, em casos que resultaram em 20 mortes.

Outro caso solucionado com a ajuda do sistema foi a atuação de um grupo de extermínio suspeito de cometer 41 homicídios em seis meses. Nesse caso, a comparação dos vestígios encontrados nas cenas de crime indicou que ao menos três armas foram utilizadas em diferentes ocorrências nas cidades de Natal, São Gonçalo do Amarante e Extremoz, todas no Rio Grande do Norte. Um policial militar e outras seis pessoas foram presas.

No estado, cinco profissionais atuam diretamente no Sinab, enquanto outros dois prestam apoio. "A gente percebeu que é importante ter um agente dedicado exclusivamente à inserção dos dados, o que já melhorou bastante o funcionamento do sistema", afirmou Pedro Eduardo Selva Subtil, chefe do setor de Perícias de Balística Forense da Polícia Científica do estado.

"No entanto, ainda é preciso ampliar a força de trabalho para permitir a interiorização da ferramenta, já que a inclusão de casos de todo o estado no sistema ainda enfrenta dificuldades", concluiu.

Sampaio acrescenta que o principal desafio ainda é a falta de pessoal dedicado exclusivamente ao Sinab nos estados. As unidades da federação com melhores índices de inserções contam com equipes ou técnicos voltados especificamente para essa função.

O Distrito Federal está entre as unidades da federação com menor número de ligações registradas no sistema, com 21 matches. No estado, o banco de dados utilizado antes da criação do Sinab opera com tecnologia diferente, e as duas plataformas não conversam, o que impede a migração ou a integração automática das bases.

O banco anterior possui atualmente 54.796 amostras inseridas, das quais resultaram 726 laudos de correlação positiva. Já o banco do Sinab reúne 2.571 amostras. "O DF trabalha com ambos os sistemas, mantendo cobertura total de inserção e análise dos materiais que chegam ao laboratório", disse, em nota a Polícia Civil local.

Já no Amapá, por exemplo, o banco não registra nenhum match. O estado foi procurado, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. Segundo pessoas que acompanham o funcionamento do sistema, a unidade ainda está em fase de aprendizado no uso da ferramenta.

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Principais crimes colocados na base de dados

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