O Ministério da Agricultura do Brasil manifestou preocupação com a decisão do governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, de propor a aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros com base em alegações de trabalho forçado. Em um documento interno obtido pela Folha, a representação brasileira em Washington alertou que essa medida "cria risco reputacional e comercial" para o país no cenário internacional. A avaliação do ministério aponta que a inclusão do Brasil na lista de economias consideradas sem proibição efetiva de importação de bens produzidos com trabalho forçado pode impactar negativamente a percepção sobre as cadeias produtivas nacionais, especialmente em setores que já enfrentam debates sobre rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade trabalhista.

A análise detalhada indica que a proposta do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), liderado por Jamieson Greer, alega que o Brasil "não impõe e [não] aplica de forma efetiva uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado". Em consequência, o USTR defende a imposição de uma tarifa de 12,5% sobre diversos produtos brasileiros, com centenas de exceções. Essa nova sobretaxa é cumulativa e pode se somar a outra de 25% já sugerida em uma investigação comercial específica contra o Brasil, elevando o potencial imposto total sobre uma gama de itens nacionais para 37,5%. O objetivo declarado do escritório americano é pressionar países com amplo comércio com a China.

O documento interno do Ministério da Agricultura ressalta que a medida proposta tem caráter transversal e, caso adotada, pode afetar tanto produtos industriais quanto agroindustriais não excluídos da lista. Isso resultaria em um aumento de custos para importadores norte-americanos e uma possível perda de competitividade para exportadores brasileiros. A preocupação com o risco reputacional já havia sido levantada em relatórios anteriores sobre audiências públicas do USTR, onde o Brasil foi mencionado em discussões sobre a indústria de molduras de madeira e produtos de marcenaria, devido ao aumento de importações a preços baixos.

Em resposta, o governo Lula (PT) expressou "profunda discordância" com as alegações americanas, divulgando uma nota na qual classificou a medida como "lamentável" por desvirtuar um tema relevante como a proteção de condições dignas de trabalho para servir de justificativa a ações protecionistas unilaterais. O Planalto afirmou ter fornecido todas as informações necessárias aos EUA sobre as normas brasileiras para coibir importações de bens produzidos com trabalho forçado e declarou que se reserva o direito de aplicar a Lei da Reciprocidade contra "situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional". A decisão final sobre a imposição das tarifas caberá a Donald Trump.