Priorizar nos meus resultados Google Ler Resumo A parceria estratégica Brasil-Argentina vive seu pior momento, marcada por tensões diplomáticas e um distanciamento comercial. Enquanto Javier Milei busca fortalecer laços com China e EUA, as exportações brasileiras para a Argentina despencam e o Mercosul é negligenciado. Entenda o impacto dessa crise para as duas nações. Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A parceria estratégica mais importante da América Latina, que envolve Brasil e Argentina, vive seu pior momento em décadas, com insultos de um presidente a outro, retirada de embaixadores dos dois lados e esfriamento do fluxo de mercadorias. Uma boa relação bilateral não necessita de afinidade política entre governos. Bastaria manter o respeito mútuo e o foco nos interesses comuns, como as trocas comerciais e a integração da infraestrutura regional. Não é o que ocorre hoje entre Javier Milei, presidente da Argentina, e Lula. A escalada de provocações representa um desperdício de tempo e de oportunidade para avançar em temas essenciais para a prosperidade das duas nações. O afastamento diplomático acontece em um momento em que, por outros motivos, o comércio entre os dois países — que movimentou 30 bilhões de dólares em 2025 — está em retração. Além disso, Milei tem se esforçado para deixar em segundo plano o Mercosul, bloco de livre comércio cujo alicerce é justamente a parceria Brasil-Argentina.
No primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, as exportações brasileiras para a Argentina caíram 18%. Em parte, essa redução se explica pela situação econômica difícil vivida pelo país vizinho, que afeta a renda da população. O consumo no varejo de pequenas e médias empresas, por exemplo, caiu 2,7% nos primeiros seis meses deste ano. Isso impacta a demanda por produtos de fora. Mas o Brasil foi mais afetado pela queda nas importações argentinas do que a China, cujas vendas caíram 3,8%, e os Estados Unidos, com redução de apenas 0,6%. No caminho inverso, as exportações argentinas para o Brasil cresceram modestos 4% no primeiro semestre deste ano, mas bombaram para a China (42% ) e para os Estados Unidos (63%). Enquanto se afasta do Brasil, a Argentina intensifica os negócios com outros principais parceiros.
A indústria automotiva é um exemplo concreto dessa mudança. A cadeia de produção nesse setor é muito articulada entre os dois países, com os carros sendo montados com peças que cruzam as fronteiras nos dois sentidos. No entanto, o número de veículos brasileiros vendidos ao país vizinho recuou 34% de janeiro a julho deste ano, comparado ao do mesmo período de 2025. Em vez disso, os argentinos estão comprando mais carros chineses, e não por acaso: no final de 2025, Milei zerou a taxa de importação para veículos elétricos e híbridos de até 16 000 dólares, sob uma cota anual de 50 000 unidades. “A indústria chinesa fica do outro lado do mundo, mas tem preços mais competitivos que a nossa”, diz José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil. Mesmo com a facilidade do Mercosul, os fabricantes brasileiros sofrem com altos custos tributários, juros elevados e insegurança jurídica — encarecendo o produto final.
A aproximação comercial da Argentina com os Estados Unidos, por sua vez, se deu via negociação de um acordo bilateral, à revelia do Mercosul. O entrosamento é econômico, mas tem pano de fundo ideológico. A política externa de Milei privilegia o eixo de poder formado pelos Estados Unidos e seus aliados internacionais. Além disso, ele defende flexibilidade para fechar acordos diretos com outros países, ao contrário do governo brasileiro, que prefere fazê-lo em conjunto com os parceiros do Mercosul. A grande patrocinadora dessa política é a irmã e secretária-geral do mandatário argentino, Karina Milei, que atua nos bastidores da diplomacia e foi apelidada de El Jefe (“O Chefe”, em espanhol) pelo irmão. Karina supervisionou o acordo assinado entre Argentina e Estados Unidos, em fevereiro, que prevê a redução de tarifas e um plano recíproco de investimentos.
O futuro do bloco econômico sul-­americano está vinculado aos ventos políticos da região — e também dos Estados Unidos. “Se Flávio Bolsonaro vencer o pleito no Brasil, é possível que o Mercosul perca força”, diz Vinicius Vieira, professor de economia e relações internacionais na faculdade Faap, em São Paulo. “Ele e Milei podem chegar à conclusão de que o Mercosul deveria ser apenas uma zona de livre comércio, não um bloco que negocia em conjunto.” O cenário muda dependendo também das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, quando o equilíbrio de poder no Congresso estará em jogo. “Em caso de vitória de Lula aqui e de derrota de Donald Trump nos Estados Unidos, acredito que a Argentina vai recalibrar sua política externa”, diz o economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado da FGV.
Apesar de estar mais próxima das duas superpotências globais, a Argentina ainda depende muito dos negócios com os países do Mercosul — mais até do que o Brasil. Nada menos que 42% do comércio interno do bloco passam pela Argentina, que tem no Brasil o destino de 24% de suas exportações, fatia maior que a de qualquer outro país. Por mais que Milei não goste, é difícil lutar contra a proximidade geográfica e com cadeias de produção complementares. “Por enquanto, a má relação entre Milei e Lula não resultou em nenhuma medida concreta de retaliação no campo comercial”, diz o consultor e ex-secretário de Comércio do Brasil Welber Barral. O especialista alerta, contudo, que a falta de sintonia nas últimas semanas pode retardar tratativas do bloco, com protelamento de reuniões entre os membros. Essa dificuldade de coordenação ocorreria em meio à implementação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, conquistado após décadas de trabalho conjunto. “A indústria vê com preocupação a perda relativa de espaço do Brasil na América Latina, especialmente em mercados estratégicos da região, como a Argentina”, diz a Confederação Nacional da Indústria, em nota enviada a VEJA.
No curto prazo, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, deixou claro que aguarda uma retratação de Milei pelas ofensas a Lula. “Esse tipo de agressão deve cessar imediatamente para que possamos trabalhar no vínculo bilateral”, disse ao jornal argentino Clarín. A intempestividade de Milei é criticada pelos próprios cidadãos de seu país. Sete em cada dez rejeitam os insultos recentes a Lula, segundo pesquisa da consultoria Zubán. Parcela ainda mais expressiva (89%) diz que o Brasil é um parceiro importante para a economia argentina. O que a população e as empresas querem é poder colher os frutos econômicos de uma política de boa vizinhança.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008
