As consequências devastadoras dos dois fortes terremotos que abalaram a Venezuela transcenderam a crise humanitária, transformando-se em um intrincado teste político para a presidente interina Delcy Rodríguez. Com seu mandato interino chegando ao fim nesta sexta-feira (3), Rodríguez se esforça para evitar que a tragédia se converta em uma crise política ainda maior, defendendo enfaticamente a atuação governamental no atendimento às vítimas.

Em contrapartida, a proeminente figura da oposição, María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz e exilada, fez um apelo público do Panamá para retornar à Venezuela. Machado argumenta que a resposta oficial aos desastres expôs as fragilidades da administração e que sua presença no país seria crucial para facilitar a transição e oferecer estabilidade em um momento de "ausência quase total do Estado", conforme suas declarações. A oposição critica a lentidão e a desorganização na resposta governamental, contrastando com os esforços de voluntários e da diáspora venezuelana na arrecadação de doações.

Os terremotos, com magnitudes de 7,2 e 7,5, causaram extensos danos, especialmente no Estado de La Guaira. Segundo o governo venezuelano, os abalos deixaram mais de 2.295 mortos e 11 mil feridos, embora os números não sejam atualizados desde quarta-feira. Em contraste, a oposição mantém um banco de dados digital com mais de 36 mil pessoas desaparecidas. Machado, que foi impedida de concorrer à presidência em 2024, vê a tragédia como uma oportunidade para seu retorno e para impulsionar uma transição democrática, buscando unir o país.

A dinâmica política se complexifica com a posição dos Estados Unidos, que, após o apoio inicial a Rodríguez e elogios às reformas econômicas, passou a demonstrar frustração com Machado. Fontes americanas indicam que Washington tentou dissuadir a líder opositora de retornar à Venezuela, temendo que sua presença pudesse desviar o foco da recuperação e gerar protestos. A decisão de Rodríguez de fechar o tráfego aéreo comercial para Caracas, segundo relatos, foi vista como uma manobra para impedir o retorno de Machado e de profissionais de socorro, embora o governo negue as acusações, classificando-as como "narrativas produzidas em laboratórios de propaganda". A situação de Rodríguez se torna ainda mais delicada com o fim de seu mandato interino, sem que as autoridades informem os próximos passos.