Uma onda de contratações toma conta de um dos mercados de energia elétrica mais voláteis do mundo, com traders recebendo pacotes de remuneração de milhões de dólares e um grau incomum de autonomia para fechar negócios. As vagas não estão em Houston, Londres ou Cingapura — cidades conhecidas como centros globais de negociação de commodities e onde profissionais recebem salários elevados.
Transição energética: Inovação e planejamento, as chaves do domínio chinês na energia limpaCom energia de sobra e bilhões em investimentos: Rio de Janeiro mira se tornar polo de IA na América Latina
Elas estão em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde gigantes do mercado avançam sobre um mercado atacadista de eletricidade de US$ 55 bilhões para lucrar com oscilações de preços sem precedentes, capazes de render fortunas.
A Trafigura contratou sete pessoas para o escritório no Rio de Janeiro e obteve uma licença de comercialização no início deste ano. A Macquarie acrescentou pelo menos 10 traders no Brasil desde novembro, segundo pessoas a par das contratações. Os movimentos ocorrem poucos anos após a chegada ao Brasil da Vitol Group, gigante global de comércio de energia.
Grandes empresas globais oferecem aos principais traders remuneração de primeiro ano, incluindo bônus de contratação, de pelo menos US$ 1,2 milhão (R$ 6,1 milhões na cotação atual) e que pode chegar a US$ 4 milhões (cerca de R$ 20 milhões) — valores muito superiores aos normalmente recebidos no país por profissionais que negociam outras commodities, segundo recrutadores.
Para enfrentar El Niño: Distribuidoras de energia devem investir R$ 20 bi em reforço de rede e infraestrutura
A remuneração elevada vale a pena diante da oportunidade de aproveitar a volatilidade provocada pela dependência da rede de fontes hidrelétrica, eólica e solar. Essa configuração pode gerar escassez e elevar preços quando os ventos diminuem, secas reduzem a disponibilidade de água ou nuvens bloqueiam a luz solar.
A chegada dessas empresas transforma o mercado de profissionais experientes que falam português e sabem lidar tanto com uma rede elétrica complexa quanto com a notória burocracia brasileira.
— Há uma surpresa evidente quando uma empresa internacional chega aqui, começa a entrevistar candidatos e vê o tamanho dos pacotes de remuneração — disse Andrew Watson, que recruta traders e executivos como responsável pela América Latina do HC Group, em São Paulo.
É verdade que traders de energia em outras partes do mundo podem receber pacotes ainda maiores, mas, para os padrões brasileiros, os valores chamam atenção. Nos últimos cinco anos, os salários de traders de energia ultrapassaram os de profissionais especializados em petróleo, diesel e café. O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, mas especialistas nessa commodity agora ganham metade do que recebem profissionais focados em energia elétrica, segundo Watson.
Conta de luz: Bandeira tarifária permanece amarela em setembro, decide Aneel
Quase metade do tempo de Watson é dedicada a esse setor antes considerado de nicho, que há poucos anos representava apenas 10% da carteira de sua equipe. As empresas muitas vezes precisam conceder aos traders um elevado grau de autonomia para fechar negócios, algo incomum fora das sedes e dos principais centros de negociação.
Traders brasileiros estão acostumados à liberdade de agir assim que surgem oportunidades, em vez de esperar que a matriz aprove as decisões, segundo Watson.
Para alguém de fora navegar nesse mercado “não é apenas uma curva de aprendizado”, acrescentou Watson:
O sistema elétrico brasileiro é dividido entre o mercado regulado, no qual distribuidoras compram energia em leilões promovidos pelo governo e a vendem a residências e pequenas empresas por tarifas definidas, e o mercado livre, no qual clientes industriais e comerciais de alta tensão negociam contratos diretamente com geradores e comercializadoras.
O que dizem especialistas: Riscos e oportunidades da abertura do mercado livre de energia a consumidores de baixa tensão
O mercado livre cresceu rapidamente com a ampliação, pelo Brasil, do número de empresas autorizadas a participar. Custos relativamente mais baixos estimularam a migração. O segmento tornou-se um ímã para tradings globais porque os preços no atacado podem oscilar fortemente ao longo do dia. O governo agora planeja abrir o mercado para praticamente todos os consumidores até 2028.
— Não existe nada semelhante no Japão, na Europa ou em outros mercados maduros — disse Marc Erb, responsável pela negociação de energia elétrica e gás da Trafigura no Brasil. Essas condições, acrescenta, “só podem ser encontradas no Brasil”.
A Macquarie não quis comentar a entrada da empresa no Brasil. Murilo Soares, que supervisiona 12 traders dedicados à eletricidade como diretor comercial da Vitol no Brasil, disse em entrevista que vê com bons olhos a chegada dos novos participantes, que devem ajudar a melhorar a liquidez do mercado.
A corrida para lucrar no Brasil, maior economia e maior consumidor de eletricidade da América Latina, ocorre em um momento decisivo para a infraestrutura energética do país e para as perspectivas de crescimento econômico. O Brasil aposta na energia renovável abundante e de baixo custo para eletrificar os transportes, atrair indústrias de alto consumo energético e data centers de inteligência artificial que poderiam sustentar a próxima onda de expansão econômica.
O boom na negociação de energia ocorre em um momento em que a transição energética global cria novas fontes de demanda por eletricidade. No Brasil, as vendas de veículos elétricos saltaram 26% e atingiram um recorde no ano passado, segundo a associação do setor ABVE.
Ao mesmo tempo, países buscam alternativas aos combustíveis fósseis, movimento que ganha urgência com a guerra no Irã e o aumento das tensões geopolíticas levando o petróleo para perto de US$ 100 por barril e restringindo as exportações de gás natural. No Brasil, porém, a rápida adoção das energias eólica e solar expôs as limitações da rede elétrica.
Essas duas fontes respondem agora por cerca de um terço da geração total de eletricidade, ante 4% há uma década. As linhas de transmissão e a capacidade de armazenamento, porém, não acompanharam esse avanço, o que significa que os preços de mercado podem oscilar significativamente quando um dia inesperadamente calmo reduz a geração eólica ou nuvens cobrem os painéis solares. O aumento dos eventos climáticos extremos nesta década, incluindo secas históricas, agrava a volatilidade.
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de energia hidrelétrica, que continua sendo a espinha dorsal do sistema energético. Mas os maiores projetos ficam na Amazônia e em outras regiões distantes dos principais centros de demanda por eletricidade, o que obriga o país a depender de linhas de transmissão antigas para levar energia aos maiores consumidores.
El Niño: ONS põe termelétricas de prontidão para garantir energia diante dos riscos climáticos
As oscilações diárias de preços no maior centro de demanda tiveram média de R$ 285 por megawatt-hora neste ano, segundo dados compilados pela Bloomberg. No geral, os preços ficaram em média em cerca de R$ 251 por megawatt-hora em 2026.
Há poucos anos, os preços da eletricidade no atacado eram praticamente uniformes ao longo do dia. Embora o nível atual não seja inédito fora do Brasil, analistas esperam que a volatilidade aumente nos próximos anos.
“Entre 2026 e 2028, o setor elétrico brasileiro provavelmente será marcado por oscilações intradiárias sem precedentes, com os preços à vista podendo variar do piso regulatório a picos explosivos no mesmo dia”, afirmaram analistas do UBS Group AG em relatório de setembro.
Em busca de conhecimento especializado sobre o clima local, a Trafigura contratou um meteorologista dedicado ao Brasil, após anteriormente contar com apenas uma pessoa nessa função para toda a empresa.
— Esse é o tamanho da importância do clima para os mercados brasileiros de energia elétrica — disse Erb.
Em fevereiro, um mês antes de a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA alertar pela primeira vez que o fenômeno climático El Niño poderia se desenvolver neste ano, a equipe de negociação da Comerc Energia já estava convencida, com base nas análises do próprio meteorologista, de que isso aconteceria.
El Niño deve alterar chuvas, ventos e temperaturas: Entenda os impactos esperados sobre fontes renováveis de energia
A comercializadora de energia com sede em São Paulo começou a montar posições no mercado de balcão para lucrar com uma temporada mais chuvosa que o normal no Sul do Brasil, segundo Pedro Kurbhi, vice-presidente de trading da empresa. A previsão se confirmou, embora ele não tenha dado detalhes sobre quanto a empresa ganhou com a operação.
O mercado livre de eletricidade do Brasil movimentou cerca de R$ 283 bilhões em vendas em 2025, segundo a Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia.
Com a abertura do mercado à concorrência nos últimos anos, um exército de traders de energia entrou em cena. Em junho, quase 500 empresas vendiam energia a preços de mercado para siderúrgicas, fábricas de celulose e negócios de menor porte, como shopping centers, hospitais e supermercados. O Brasil também desponta como um importante destino fora dos EUA para data centers.
Mas essa enxurrada de atividade também traz riscos.
O atrativo é que até estratégias conservadoras de negociação, quando executadas em grande escala, podem gerar lucros de até 15%, segundo Muched Nassif, responsável pela pesquisa de energia elétrica e renováveis da Rystad Energy na América do Sul:
—Você pode ganhar muito dinheiro, mas também pode perder muito dinheiro.
Historicamente, a eletricidade é um dos mercados de commodities mais voláteis — se não o mais volátil — porque não pode ser armazenada facilmente como grãos ou petróleo. A oferta precisa corresponder perfeitamente à demanda, em tempo real, a cada segundo do dia.
Na tentativa de conter a volatilidade e suavizar as oscilações no mercado de energia, o governo brasileiro busca atrair investimentos em baterias capazes de armazenar eletricidade para os momentos em que a geração não for suficiente para atender à demanda.
As oscilações extremas de preços estão tirando do mercado comercializadoras menores e com pouco caixa. Pelo menos seis empresas locais de comercialização de energia entraram neste ano com pedidos de recuperação judicial, segundo reportagens da imprensa local.
Esses reveses pouco fizeram para reduzir o entusiasmo das empresas estrangeiras, que, em geral, dispõem de linhas de crédito muito maiores para fornecer liquidez e conseguem suportar melhor as oscilações do mercado.
O gigante bancário australiano Macquarie, por exemplo, amplia os negócios no Brasil para fornecer e comprar energia de clientes, oferecer financiamento e suporte de balanço e expandir as próprias atividades de trading, segundo uma pessoa a par do assunto.
Ross Gregory, responsável global por commodities na empresa de recrutamento executivo Omerta Group, também foi envolvido pela onda de contratações que tomou conta do mercado brasileiro de energia. A recente expansão e o aumento da liquidez lembraram a ele o desenvolvimento dos mercados de energia elétrica do Japão, da Austrália e da Nova Zelândia em décadas anteriores.
— Cada vez mais empresas estão entrando nesse mercado com o objetivo de contar com conhecimento especializado local no Brasil para negociar energia elétrica, e essa tendência só está acelerando — disse Gregory.
(*) Colaboraram Archie Hunter e Naureen S Malik
%2Fhttps%3A%2F%2Fi.s3.glbimg.com%2Fv1%2FAUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8%2Finternal_photos%2Fbs%2F2026%2Ft%2Fh%2FUhZSquRhyqNMVaombwyw%2F457417693.jpg&w=3840&q=75)

