A guerra no Oriente Médio, com impactos diretos sobre o estreito de Ormuz, está redesenhando o mapa energético global. E um dos principais beneficiados não está no Golfo, mas na América do Sul.
A Guiana, pequeno país vizinho do Brasil com menos de 1 milhão de habitantes, vive um boom econômico sem precedentes graças à disparada do petróleo.
Desde que começou a explorar reservas offshore em 2019, a economia guianense quintuplicou, tornando-se a que mais cresce no mundo.
Agora, com o barril girando em torno de US$ 100, bem acima da média de US$ 69 em 2025, o país colhe ganhos ainda maiores, impulsionados pela instabilidade global.
O salto nos preços do petróleo elevou drasticamente a arrecadação. Estimativas indicam que a receita semanal com o setor saltou de cerca de US$ 370 milhões para mais de US$ 620 milhões desde o início do conflito envolvendo o Irã.
O epicentro dessa riqueza está no bloco de Stabroek, operado por um consórcio liderado pela ExxonMobil. A produção deve chegar a 940 mil barris por dia ainda em 2026, com planos de expansão acelerada.
Se os preços se mantiverem elevados, os campos petrolíferos da Guiana podem gerar até 33 bilhões de dólares, cerca de 170 bilhões de reais, neste ano, cerca de 75% acima das projeções anteriores à guerra.
A Europa, pressionada pela crise energética, paga prêmios elevados pelo petróleo, o que amplia ainda mais os ganhos do país.
As grandes petroleiras avançam rapidamente. Já são quatro projetos em operação, cada um apoiado por plataformas flutuantes de produção (FPSOs) de cerca de 2 bilhões de dólares.
Um quinto projeto deve entrar em operação antes do previsto, e outros estão em construção ou planejamento, incluindo iniciativas voltadas ao gás natural.
Esse ritmo acelerado é incentivado tanto pela demanda global quanto pela expectativa de retorno financeiro.
À medida que os custos iniciais dos projetos forem amortizados, o que deve ocorrer até o fim de 2026, a fatia do governo na receita do petróleo tende a subir significativamente, de cerca de 14,5% para mais de 50%.
O problema é que essa bonança vem acompanhada de riscos estruturais.
O petróleo já responde por cerca de metade do orçamento público e por aproximadamente 75% do PIB da Guiana, uma dependência superior à de países petroleiros como a Líbia.
Com a alta dos preços, essa concentração tende a aumentar.
Especialistas alertam para o risco clássico da chamada “maldição dos recursos naturais”, quando a abundância de commodities prejudica outros setores da economia.
Enquanto o petróleo enriquece o país, outros segmentos sofrem com o aumento dos custos de energia.
O governo tentou conter os impactos zerando impostos sobre combustíveis e pressionando distribuidoras estatais a segurar preços, mas operadores privados já começaram a repassar aumentos.
Os efeitos colaterais já são visíveis no cotidiano.
Desde 2021, os preços de alimentos e moradia subiram cerca de 75%. Ao mesmo tempo, o setor petrolífero atrai mão de obra qualificada, esvaziando outras áreas da economia.
Há também sinais de deterioração institucional.
O aumento rápido de receitas públicas levanta preocupações sobre desperdício, clientelismo e tensões com a imprensa.
Projetos de infraestrutura enfrentam atrasos e estouros de orçamento.
Um exemplo é uma iniciativa para levar gás natural à costa e substituir usinas poluentes, que já custa seis vezes mais do que o previsto e está anos atrasada.
Apesar dos riscos, o governo tenta equilibrar crescimento e estabilidade.
Investimentos pesados em infraestrutura, como uma rodovia ligando o país ao Brasil e uma ponte sobre o rio Demerara, buscam diversificar a economia no longo prazo.
Até agora, indicadores como inflação central e déficit fiscal permanecem relativamente sob controle, segundo avaliações recentes de organismos internacionais.
Ainda assim, economistas defendem maior cautela.
Uma das principais recomendações é reforçar o fundo soberano do país, poupando parte da receita extraordinária para evitar um aumento excessivo de gastos públicos.
A Guiana se tornou um símbolo extremo de como choques geopolíticos podem gerar ganhadores inesperados. Mas também ilustra os dilemas clássicos de economias dependentes de recursos naturais.
Com receitas em alta e pressão por gastos, o desafio do governo será resistir à tentação de expandir despesas de forma descontrolada, e garantir que a riqueza do petróleo não acabe sufocando o restante da economia.
