Falar de Deus dá voto porque religião significa muito mais do que ir à missa ou ao culto.Robinson Estrásulas / Agencia RBSA religião é parte estruturante da identidade nacional. No livro Brasil no Espelho, o cientista político Felipe Nunes aponta, a partir de pesquisas realizadas pela Quaest, que 96% dos brasileiros concordam que Deus está no comando de suas vidas. Logo, não surpreende que a maior polêmica da última semana deste país pré-eleitoral — virado de cabeça para baixo — seja em torno de símbolos... religiosos.
Seja quem for que tenha criado a informação falsa — segundo a qual o candidato Flávio Bolsonaro (PL), se eleito, decretaria “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” e que retiraria o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil — sabe muito bem como a espiritualidade mobiliza rebanhos. Fez girar, de forma engenhosa, a roda insana das fake news.
A mesma pesquisa da Quaest mostra que a prática das religiões mudou ao longo dos anos e que mais pessoas passaram a se declarar evangélicas. Se, em 1872, 100% dos brasileiros se declaravam católicos, esse percentual caiu para 65% em 2010, quando 22% se diziam evangélicos. Em 2023, a proporção estava em 51% para 31%. Sem falar dos “sem religião”, dos espíritas e daqueles que seguem fés de matriz africana e outras.
Então, falar de Deus dá voto porque religião significa muito mais do que ir à missa ou ao culto. Está mimetizada nos hábitos familiares, na forma como as pessoas trabalham, nas relações de amizade e na maneira como consomem cultura. Ainda que o Estado seja laico, o crucifixo está nos plenários da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal (STF).
Também não é novo o uso político da fé. A própria definição de Nossa Senhora Aparecida como padroeira ocorreu em um momento em que a Igreja, que havia perdido sua condição de religião oficial com a República, buscava recuperar influência na sociedade e no Estado. O pedido ao Vaticano partiu dos bispos brasileiros, após o Congresso Mariano de 1929, e foi dirigido ao papa Pio XI. O pontífice reconheceu, em 16 de julho de 1930, Nossa Senhora da Conceição Aparecida como padroeira do país.
Era parte da construção de um símbolo religioso de dimensão nacional. A grande proclamação pública ocorreu no Rio de Janeiro, em maio de 1931, diante de uma multidão e com a presença de Getúlio Vargas, então chefe do Governo Provisório.
Os mais antigos irão se lembrar de como grupos políticos exploraram o episódio em que Sérgio von Helder, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida em 12 de outubro de 1995. O episódio foi condenado tanto por católicos quanto por setores evangélicos.
O Brasil deixou de ser um país de hegemonia católica quase absoluta e caminha para uma configuração religiosa muito mais plural. Há, nos bastidores da Igreja Católica, preocupação com a perda dessa hegemonia, conforme já confidenciaram à coluna altas autoridades do clero brasileiro. Mas isso não transforma, necessariamente, católicos e evangélicos em adversários.
O Brasil é, tradicionalmente, um território pacífico em termos de fé. Não pode permitir que a religião seja instrumentalizada para fins eleitoreiros. A exploração política da fé faz aflorar sentimentos profundos de ancestralidade, pertencimento e identidade, e pode torná-la perigosa quando mobilizados para dividir. Foi assim na Irlanda do Norte. É assim no Oriente Médio.


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