Produtividade, situação fiscal e qualidade da educação são os principais desafios da economia brasileira hoje, na visão do professor do Departamento da Economia da PUC-Rio Felipe Schwartzman. Ele retornou este semestre ao Brasil depois de 22 anos nos Estados Unidos, dos quais 16 anos como economista do Federal Reserve (Fed) de Richmond, de onde está licenciado.

Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Schwartzman fez mestrado na London School of Economics and Political Science (LSE) e doutorado na Universidade de Princeton, onde chegou em 2004.

Ao começar no Fed, em 2010, os EUA ainda viviam o pós-crise internacional de 2008. Em 2020, vivenciou a pandemia pelos olhos do banco central americano e colaborou para estudos sobre o comportamento da economia e da política monetária dos EUA no período.

“Não tem bala de prata”, afirma, ao falar sobre as mudanças que considera necessárias para alavancar a produtividade brasileira. A reforma tributária que entra em vigor no próximo ano é um dos caminhos para ajudar o país a se tornar mais produtivo, mas a trajetória é uma soma de “milhões de pequenas coisas”, segundo o economista.

Algumas reformas feitas nos últimos anos, como a trabalhista e a Lei de Falências, além de redução de burocracia em certas áreas, ajudaram no cenário, nota. Ainda assim o Brasil cresceu menos que outros países com padrões semelhantes de desenvolvimento, diz, ao citar a importância do tema.

No caso da educação, o professor da PUC-Rio defende que os estudos em curso sobre os casos de sucesso do Ceará e do Piauí se tornem prioridade para as políticas nacional e estaduais. Isso é fundamental, segundo ele, para entender as razões de o ganho em anos de estudo não ter se traduzido integralmente em melhoria da qualidade da educação no país.

A produtividade do trabalho no Brasil voltou a crescer no segundo trimestre, com aumento de 1% ante igual período de 2025, na medida por hora efetivamente trabalhada, segundo dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). No primeiro trimestre, tinha caído 0,5%.

Em um horizonte de mais longo prazo, a produtividade contribuiu com apenas 25% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desde 1982, contra mais de 50% no mundo, pelas contas de Silvia Matos, que é coordenadora do observatório e também do Boletim Macro Ibre. Entre 2020 e 2025, o percentual caiu para 16%. A economista classifica como medíocre o crescimento da produtividade no país.

Uma economia que cresce mais, é mais produtiva e mais moderna, tem mais resiliência. Se o Brasil cresce 4% ao ano, não se vai falar tanto sobre o fiscal” — Felipe Schwartzman Ciente de que o Brasil tem muitos especialistas estudando o tema da produtividade e com propostas para mudar essa realidade, Schwartzman afirma que pretende direcionar cada vez mais sua atenção para os problemas brasileiros e poder contribuir para o debate.

Seu campo de estudo é principalmente a dinâmica de funcionamento dos ciclos econômicos, como causas e mecanismos de transmissão, mas também tem interesse e pesquisas em economia urbana.

Nesse contexto, é crítico ao que chama de “visão curto prazista” de parte dos especialistas para a economia brasileira, com o hábito de se pensar apenas se há crescimento ou não no ano seguinte, e também para a questão fiscal.

Sobre este último tópico, afirma que a situação fiscal hoje é delicada, mas se mostra cauteloso e reforça que esta não é sua área de especialidade. Na sua visão, a questão fiscal deve ser tratada do ponto de vista de sua capacidade de resiliência e preparação da economia para choques externos, como numa conjuntura internacional mais desfavorável.

“É preciso estudar sobre o que se pode fazer para a economia estar preparada. Pensar em virar as coisas a nosso favor e como aproveitar isso. Mas de um jeito também de não perder tudo se as coisas não estiverem mais a nosso favor. Este para mim é o grande tema”, diz.

“Uma economia que cresce mais, é mais produtiva e mais moderna tem mais resiliência. Se o Brasil começa a crescer 4% ao ano, a gente não vai falar tanto mais sobre o fiscal. As diferenças de potencial que isso tem para a qualidade de vida das pessoas é enorme. Se a gente conseguisse de alguma maneira resolver isso [produtividade], muitas dessas conversas seriam mais simples”, completa.

No atual cenário, Schwartzman vê espaço para o Brasil reduzir sua taxa de juros mesmo em um ambiente internacional de juros mais altos, em que outros países têm mais facilidade para atrair capital internacional. Isso se justifica, diz, pela diferença entre a taxa de juros do país e a dos Estados Unidos:

“No fim das contas, a diferença da taxa de juros americana e da brasileira é tão grande que é possível reduzir essa distância sem a gente precisar subir a nossa. [...] O Brasil tem alguma margem de manobra [para reduzir juros].”

O economista lembra a condução da política monetária no pós-pandemia, quando o Brasil subiu os juros antes dos Estados Unidos. “E acho que foram resultados positivos em relação à inflação aqui no Brasil. Alguma margem de manobra o Brasil tem”, afirma.

Esse processo, segundo o professor da PUC-Rio, passa pela política fiscal, mas também por reformas no sistema de crédito e na percepção de risco. “O grande debate é entender o que se faz para não precisar de um custo tão alto. Eu só sei que não é por vontade política, tem que entender como se faz isso de maneira correta.”

O patamar alto dos juros também é um fator complicador para o endividamento das famílias e das empresas, apesar de o Brasil ter “aprendido a rodar nesse nível”, reforça o economista licenciado do Fed.

Ele cita o tema como um dos pontos de alerta para a economia brasileira hoje e lembra que a recessão dos anos de 2015 e 2016 também veio depois de um período de dívidas elevadas, embora o contexto fosse diferente.

“O endividamento no Brasil certamente é uma questão que merece atenção, é preciso ficar de olho”, defende.

O economista lembra a situação vivida nos Estados Unidos dos anos 2000, na crise do subprime (empréstimos de alto risco). “As famílias estavam tocando a vida, comprando e vivendo. Quando vem a recessão, a situação se complica. No contexto brasileiro, o mais perigoso é que isso pode virar uma bola de neve, dada a nossa taxa de juros.”

Pelos dados divulgados pelo Banco Central na semana passada, o endividamento das famílias com operações de crédito superou 50% pela primeira vez na história. O indicador atingiu 50,1% em agosto, o maior patamar da série histórica, iniciada em janeiro de 2005.

Ao mesmo tempo, o número de empresas inadimplentes cresceu 14,3% em agosto, na comparação com agosto de 2025, e chegou a 9,3 milhões de CNPJs, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian.