A tinta vermelha da pichação contrasta com o cinza da carcaça de carro incendiada usada como barricada. Lê-se: “Organize seu ódio.” Mais adiante, um grafite colorido no muro avisa: “Deus é o dono do lugar.” Imagens de câmeras corporais e de equipamentos instalados em caveirões transmitem a tensão da guerra entre policiais e bandidos em meio a diálogos desesperados e barulhos de tiros e granadas. Drones de monitoramento da polícia captam do alto imagens do resgate de um delegado baleado. Estas são algumas das cenas do primeiro episódio de “Territórios — Sob o domínio do crime”, série documental que estreou no Globoplay na quinta-feira (30) abordando o tema da segurança pública no Brasil.

Netflix: confira as estreias de filmes e séries em maio de 2026 no streamingPrime Video: confira as estreias de filmes e séries em maio de 2026 no streaming

— No documentário, temos a oportunidade de contar as histórias reais do jornalismo sem a urgência do dia a dia, mergulhando nos temas com maior profundidade e ambição. Em “Territórios”, falamos sobre uma das maiores preocupações da população brasileira hoje: estamos sob o domínio do crime. Nossa equipe mostra a história das facções por quem viu, quem acompanha, quem consegue analisar esse fenômeno — explica Fátima Baptista, produtora executiva da série e gerente de Inovação e Projetos Especiais da Globo.

O primeiro episódio acompanha a Operação Contenção, das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, nos Complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025. O segundo aprofunda a análise sobre a corrida armamentista e o papel dos fuzis na dominação territorial das facções no Brasil e na intensificação da violência urbana. Já o terceiro destaca o sistema prisional como berço e sustentação das grandes facções: Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC).

Editor executivo do jornal Extra, Fábio Gusmão conta a história do presídio Bangu 1 e a criação do Escritório do Crime. Em 2002, como repórter da editoria Polícia, ele teve acesso ao Estatuto do Crime, após uma coligação entre as duas facções, e publicou uma série de reportagens a respeito do poder paralelo.

Ainda no terceiro episódio, o espectador assiste a uma entrevista reveladora com Fernandinho Beira-Mar, um dos líderes do tráfico, preso há mais de 20 anos.

— A entrevista foi pedida aos advogados de defesa e autorizada pela Justiça e pela Secretaria Nacional de Administração Penitenciária. Nós consideramos fundamental ouvir todos que tenham informações sobre como chegamos ao ponto atual de insegurança. Fernandinho Beira-Mar fez parte tanto da construção do crime organizado no país quanto também da atual situação que vivemos — conta Marcio Sternick, produtor executivo da série e diretor de Jornalismo da Globo no Rio de Janeiro.

O doc mostra ainda como o crime organizado ultrapassou fronteiras, com infiltração em terras indígenas e na economia legal. O surgimento das milícias e a transformação do controle territorial em negócio são outros destaques. No sexto episódio, a relação entre crime e política é o foco.

— O avanço do crime não se restringe ao Rio ou a São Paulo. É fundamental que a sociedade compreenda a gravidade do fenômeno, reconheça as fragilidades no enfrentamento do problema e se disponha a discuti-lo. Nosso objetivo sempre foi provocar um debate qualificado — diz Gustavo Gomes, diretor da série.

“Territórios — Sob o domínio do crime” é o 100º documentário lançado pelo GloboplayA obra mobilizou 29 jornalistas Foram 27 cidades percorridas em 7 estados brasileiros, além do Distrito Federal Outros 3 países da América Latina (Colômbia, Peru e Paraguai) entraram no roteiroNo total, foram feitas 110 entrevistas, de pessoas como parentes de vítimas da violência, autoridades da segurança pública e especialistas