Diretora Executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenadora do mestrado profissional em gestão e políticas públicas do IDP-São Paulo

Diretor Presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Professor da FGV EAESP

Gerente de Projetos e Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

O cenário da segurança pública no Brasil atravessa uma transformação profunda, marcada pela consolidação do estelionato como o principal crime patrimonial do país. Enquanto índices de criminalidade tradicional, como homicídios e roubos de rua, apresentam redução, os golpes e fraudes registram uma escalada alarmante. Em 2025, o Brasil contabilizou 2.261.055 ocorrências de estelionato, abrangendo tanto modalidades tradicionais quanto digitais. Este número representa um crescimento impressionante de 429,8% em comparação a 2018, início da série histórica destacado no 20° Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Essa explosão reflete-se na percepção de segurança da população: cerca de 83,2% dos brasileiros afirmam temer ser vítimas de fraudes por internet ou celular.

A distribuição desses crimes pelo território nacional revela uma forte desigualdade regional associada ao desenvolvimento digital. O padrão indica que a incidência do crime acompanha o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada unidade da federação. Contudo, os números oficiais são apenas a ponta do iceberg; estima-se uma subnotificação massiva: 15,8% da população com mais de 16 anos (cerca de 26,3 milhões de pessoas) foi vítima de algum golpe no último ano, evidenciando que o problema real é muito mais vasto do que as estatísticas policiais sugerem.

A dinâmica atual do estelionato no Brasil não é mais caracterizada por indivíduos isolados, mas por uma operação de escala industrial. O crime passou a adotar uma lógica gerencial empresarial, com divisão de tarefas, roteiros profissionais, metas de arrecadação e bônus por performance. Mais grave ainda é a integração dessa “economia criminal” com grandes facções, como o PCC e o Comando Vermelho, que passaram a investir em “escritórios do crime” dedicados a fraudes digitais por considerá-las uma atividade de baixo risco e alta rentabilidade em comparação ao tráfico de drogas.

A eficácia dessa indústria criminosa é sustentada por um quadro de impunidade quase absoluta. Existe um “funil” crítico entre o registro da ocorrência e a punição: em 2025, embora tenham ocorrido mais de 2,2 milhões de registros, apenas 63.771 processos penais foram iniciados e somente 4.819 pessoas foram presas por estelionato. Isso significa que mais de 97% dos estelionatos relatados no Brasil não chegam ao Judiciário, tornando a prática do golpe um negócio de baixíssimo risco jurídico. Mesmo com mudanças legislativas, a resposta estatal ainda é vista como insuficiente diante da rapidez de adaptação tecnológica das organizações criminosas.

Para reverter esse quadro, as alternativas utilizadas em âmbito internacional sugerem que o caminho não passa apenas por campanhas de conscientização, mas por uma integração operacional em tempo real. Singapura, por exemplo, reduziu seus casos através do Anti-Scam Centre, que une polícia, bancos e plataformas digitais para congelar contas e bloquear sites em minutos. A Austrália impôs deveres legais de prevenção e multas pesadas não apenas aos bancos, mas também às empresas de telecomunicações e redes sociais, combatendo o ecossistema do golpe como um todo. O desafio brasileiro consiste, portanto, em superar a fragmentação entre os poderes e órgãos reguladores, criando uma coordenação nacional dedicada que proteja a vítima de forma robusta e ataque simultaneamente a megaestrutura construída.